O Homicídio da III República Pelos Cobardes da Classe Política

Há 3 semanas, ficamos horrorizados com o que se via na televisão: o caos, o inferno, o sofrimento, todo o terror de Pedrógão, num ciclo mediático interminável. O nosso horror perante os 64 mortos acumulou-se ao terror de descobrirmos que o nosso armamento está à mercê de quem quiser levá-lo. Num curtíssimo espaço de tempo percebemos que não temos um Estado, mas sim um repositório de gente inútil a quem chamamos políticos que vivem a boa vida à nossa custa. Parece que sempre que a cortina cai com situações difíceis como estas, vão até aos limites da terra para desvalorizar a tamanha vergonha que é a sua flácida gestão de recursos públicos e o quão impotente o seu desempenho quando as coisas correm mal.

Tenho tido algum receio em escrever este texto, mas o que se tem passado nas últimas semanas força-me a dizer o seguinte: a III República foi morta.

Para verificar este facto temos décadas de uma devastadora e multipartidária rede de corrupção, interesses, manipulações e gastos criminosos do erário público que levou o país a 3 bancarrotas; hipocrisia militante e desonestidade política desta classe de ditos elites é repugnante, ora hoje dizem uma coisa, ora amanhã dizem o contrário; escândalos sucessivos de prevaricação, favoritismo, branqueamento, abuso de poder, destruição de capital, de isto e daquilo, e por aí fora. A história dos últimos 43 anos não é uma que se possa definir como sendo um grande sucesso para a maioria dos Portugueses.

Após décadas de uma aberrante apatia para o bem geral dos portugueses, chegamos ao cúmulo no dia 17-06-2017, aonde 47 pessoas foram mortas numa estrada e outras tantas abandonadas à sua sorte para morrerem no inferno. Depois veio Tancos. Entretanto não há uma responsabilidade que se veja entre uma rede sem fim de falhas, seja no SIRESP, seja na GNR, seja na Proteção Civil, seja na coordenação do MAI, seja do exército, seja do Ministério da Defesa, seja do que seja. Tudo falhou, mas ninguém tem culpa. O sistema fracassou grotescamente, e não há uma alma que nos venha pedir desculpas.

Vou mais longe do que ontem no debate sobre o estado da nação. O Estado entrou em colapso é verdade, e com ela veio outra vítima. Sim, a III República morreu pois deixou efectivamente de haver qualquer gota de confiança, deixamos de acreditar e de confiar na plenitude do que nos dizem e as suas desculpas esfarrapadas e deturpações puxadas já nem sequer queremos engolir.

Sem confiança não há Estado logo sem confiança não há Governo. Sem confiança vemos o que de facto temos: uma aristocracia, gorda e anafada cuja principal preocupação é proteger-se a si própria, alimentada e sustentada por todos nós, o reles plebeu eternamente ingénuo que lhes enche os cofres e as suas grosseiras barrigas.

Nada por acaso, na semana passada dei por mim a reler a Declaração de Independência dos EUA (quem nunca leu, merece perder uns minutos a conhecer este texto todo) e logo no início do texto, encontramos esta frase:

“… a fim de assegurar esses direitos (vida, a liberdade e a procura da felicidade), governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.”

A principal razão para a independência está aqui, um pressuposto que é aplicável a qualquer nação deste nosso planeta: SEMPRE que um governo se torne DESTRUTIVO da nossa liberdade, das nossas VIDAS, temos o DIREITO, o DEVER de alterar ou abolir esta forma de governo. Se um estado não consegue criar as condições para nos sentirmos felizes e seguros, então não é estado que valha ser mantido. Temos que ser exigentes, tal como são connosco quando chegamos à hora de pagar impostos. Esperam tudo e mais algum de nós, exigem a nossa paciência infinita e depois rezam para que não nos lembremos das suas traições sucessivas que compõem a sua desgovernação continua.

E porque é que toleramos isto? Porque é que devemos passar por sucessivos governos a transferir os lucros do nosso trabalho para financiar falências de bancos e empresas e sucessivas bancarrotas de um Estado criminosamente gerido? Tanto doutore que por ai anda, tanta ciência política, mas ainda não vi ninguem a cienciar coisa nenhuma. Tal como fez a aristocracia durante séculos, estes agora andam a gozar com a nossa cara, e não é por termos eleições de vez em quando que temos democracia. Longe disso. Nós temos democracia porque existem consequenciais verdadeiras e palpáveis para quem viola e abusa do poder que é confiado a quem elegemos. Se não existem consequências, se não existe um sistema de justiça que se veja, se não há respeito pelos cargos que se ocupa, se não se tem noção da diferença entre politiquice e governação, ora então não temos democracia.

A meu ver, a partir do momento em que 64 pessoas foram mortas no inferno, houve uma 65ª morte: a Terceira República. E embora hajam responsabilidades pelas a apurar pelas mortes destas vítimas, os responsáveis pela morte da III República são óbvios. Sabem aquele feeling que têm tido no fundo do vosso estômago ao longo das últimas semanas? Aquele sentimento que algo está muito mal? É o que acontece quando nos deparamos com a realidade por detrás da cortina, a realidade que têm feito de tudo para se manter escondida.

Qual a diferença de outras calamidades? É que hoje em dia os meios de comunicação já não se resumem à televisão, à radio e aos jornais. Hoje temos meios que vão mais longe, que vão até ao terreno se for necessário, e a verdade pode ser exposta perante todo o mundo enquanto temos uma máquina inteira a tentar esconder o sucedido. E a principal diferença com Pedrógão? Houve quem desta vez dissesse BASTA, e essa voz é crescente e não se cala, não se esquece e não vai largar este tema: desta vez cruzaram uma linha e não há volta a dar.

Da comunicação social à classe política, andam a bombar ao máximo para esconder a morte da III República Portuguesa. O Thomas Jefferson dizia são necessárias revoluções de geração em geração, pois os valores naturalmente evoluem e creio que não estou sozinho em dizer que se antes não me revia neste sistema, então agora ainda menos. É elitista, é paternalista, é lento, é demoroso, é incompetente, é o oposto de profissional e pior, é cúmplice da morte dos nossos compatriotas.

Não percebo como é que é aceitável ter um Estado com a dimensão do nosso que funcione tão mal, que serva tão mal a grande maioria das pessoas. Não percebo como é que se despreza tanto quem inova, quem cria, quem trabalha, quem faz acontecer, e valoriza principalmente quem cala, quem obedece, quem concede, quem segue, quem baixa a cabeça. Não percebo.

A 3ª República é constituída por todo um sistema político e económico que não se aplica aos tempos que correm. Não entendo a necessidade de ter uma classe altamente profissionalizada numa única actividade, a política, que não exige experiência profissional para exercer cargos de alta responsabilidade e remuneração. A politica por si só não é razão suficiente para se exercer um cargo, e infelizmente, a grande maioria de quem governa, fá-lo pela sua competência política, e raramente pela sua competência profissional.

E isto trata-se de toda uma classe, que fora aquilo, que sabem eles fazer? Serem advogados? Serem professores universitários? Interpretes eruditos daquelas tretas a que eles chamam de “leis” que são eles que escrevem para posteriormente saber precisamente como furar em interesse deste ou daquele grupo económico?

Podemos e devemos exigir melhor, e temos que começar IMEDIATAMENTE a conceber a IV República. Chegamos a este ponto por alguma razão e deixar atrasar esta transição inevitável para um sistema que seja, de facto, justo, só nos aproxima cada vez mais a um país do terceiro mundo, ou na pior das hipóteses, conforme idealizam Jerónimo e as Mortáguas, a Venezuela.

Temos que garantir que este ciclo de poder que se fixa única e exclusivamente numa pirâmide invertida de corrupção e incompetência é quebrada de vez.

Andam todos a manter o pó bem alto para que não vejamos o cadáver que é a III República, mas um dia, o pó irá assentar, e por detrás desse cadáver, tal como aconteceu com as 64 vítimas dos fogos, estaremos nós. Porque quando a coisa aperta e o povo exige liderança, só podemos contar connosco. Os outros, é sabido, vão para longe, vão para Palma de Maiorca ou vão para a Assembleia da República insultarem-se uns aos outros. Efectivamente nada é feito, e não sentimos nem mais confiança nem mais segurança.

Sendo assim, digam-me, precisamos deles para o quê?

No Reino dos Medíocres, os Génios são decapitados

Texto lido : https://www.youtube.com/watch?v=su_IgEWCRUg&t=1s

Quando era ainda uma criança, achava que as pessoas que se gabavam muito delas próprias (na Suíça dizíamos que “elles se la pêtent”) eram pessoas desprezíveis. Achava aquilo superficial, desadequado, não via razões minimamente objectivas que sustentassem tanta bazófia. Com o passar dos anos as coisas mudaram: eu é que passei a alardear-me! Achava piada, permitia abrir um novo campo humorístico, no novo meio em que passei a me inserir (universitário estatal jurídico) aquilo contrastava tremendamente com o “pensamento” dominante.

Mas aquela nova atitude também era o reflexo de um método de “sobrevivência”: quando era mais novo não me gabava, falava pouco e não chateava ninguém. Meio-caminho andado para ser aquele que sofria as piadas e graçolas dos outros (o que foi que aconteceu). Assim como também decidi adaptar-me e responder, acabei por adoptar parte do comportamento dos “macacos”[1]. A idade, o comodismo e os resultados fizeram que mais que adoptar, entremeei essas atitudes.

O problema é que o contexto mudou: a adolescência tinha acabado, os filhos de operários eram agora filhos de notários, o gosto por sair todos os fins-de-semanas foi substituído pela necessidade de estudar longas horas a fio. E claro alguns dos meus colegas eram também antigos “intellos”[2], à diferença que não quiseram, ou não necessitaram de se adaptar aos gajos “fixes”.

Inevitavelmente isso criou conflitos: eu continuo a usar uma linguagem muito crua, com palavrões, imenso recurso à sexualidade, humor negro quando estou com pessoas que considero meus amigos ou potenciais amigos. O problema é que os ditos não têm a mesma sensibilidade que eu: a vantagem é que isso permite separar o trigo do joio.

Quando mudei de comportamento, também o analisei. Comecei a ter mais compreensão por esses tais “fixes”, que agora estão a um passo de me servirem como meros empregados de limpeza[3]. Eu disse-me a mim próprio “se tu não gostares de ti próprio, como é que alguém o poderá fazer? Mais, quando sentires que o teu mundo se desmoronou, estarás sozinho. Ora como queres sair do poço se não gostares de forma irracional de ti? Como queres subir o poço, algo de tão perigoso se não tiveres uma absoluta confiança em ti próprio?”

Assim, convenci-me que a bazófia era algo de bom, é algo que nos ajuda a avançar, a nos afirmar.

A nos amarmos a nós próprios, o que eu esqueci de fazer durante tantos anos.

Hoje convenci-me ainda mais de isso. Convenci-me ao lembrar dos escritos de Ayn Rand, de toda a filosofia do liberalismo.

E convenci-me a testemunhar de mais um episódio de mediocridade.

Quem consultar a minha página Facebook, virá que ela está cheíssima. Artigos, fotografias, reflexões. Há de tudo e em grande quantidade (ao ponto que tive de instalar um programa para me impedir de perder tanto tempo na rede!).

Encontrarão principalmente artigos, onde ideias são apresentadas, ou onde eu próprio formulo ideias e pistas de reflexão. Tento aplicar a máxima que “gente inteligente discute ideias, gente média discute factos, gente baixa discute pessoas”. Tento assim ficar sempre no Império das Ideias.

No entanto, claro há lugar para o humor e a bazófia. Ora publiquei há tempos uma monumental obra de bazófia.

Eu que passo, o quê, 90% do meu tempo a publicar “coisas sérias” decidi ir para aquele registro. E não é que, pessoas com quem eu não falo há mais de um ano, uma das quais “desamigou-me” do Facebook por, desculpem do pouco, ter ousado dizer que achava que PESSOALMENTE se EU tinha de divorciar consideraria isso como um testemunho de infâmia[4], reaparece no meu mural. E para dizer isto: “Que homem!”. Dois outros foi “Such wow”, e “WOW” em resposta à primeira.

90% das publicações são sobre política, economia, sociologia, filosofia, espiritualidade, e lá aparecem os queridos NUMA publicação mais rasca para deixarem comentários de duas palavras, a cheirarem a troça, porque ousei gabar-me no meu próprio mural!

E é aí que Ayn Rand falou directamente para mim: não temos de nos desculpar dos nossos sucessos. Não existe nenhum motivo de orgulho em ser medíocre. De querer nivelar toda à gente por baixo. De viver na inveja, a desprezar os méritos alheios.

Resumindo: aquela gente odeia bazófia porque não gosta dela própria.

Quem tem um mínimo de autoconfiança, quer lá saber se fulano tal se gaba ou deixa de gabar. Quem gosta o suficiente de si próprio, não perde tempo a fazer reflexões sobre como os outros vivem (e nesse caso direi, não gasta só o tempo dele a preencher a terceira parte da máxima que citei encima).

Pelo contrário, os espíritos livres têm orgulho neles próprios. Será necessário demonstrar o sucesso? Claro que não. O trabalho fala por ele próprio em princípio, e quem se gaba por se gabar rapidamente é descoberto. Ele próprio tem de admitir a realidade; se não o fizer, sofrerá as consequências. E se teimar em ignorar as consequências, costumará deixar a bazófia para enveredar pela inveja pura (tem de encontrar maneira de justificar os seus falhanços sem reconhecer os seus erros). Voltamos ao ponto inicial da mediocridade.

Mas se pessoas geniais não precisam de se gabar, pessoas medíocres terão possivelmente ainda menos recurso à bazófia. Os medíocres estão concentrados em eliminar quem saía da norma que inventaram. Não há tempo para se gabar. Ou se se gabam é porque conseguiram lixar a vida alheia. Veem? Nunca produzem nada de positivo, apenas destroem. Vivem através dos outros, por oposição a eles.

O significado da famosa frase anarquista “nem mestre, nem Deus” é mais que o que aparente ser à primeira vista: escolhe o teu próprio mestre, escolhe o teu próprio Deus. E tu podes ser o teu próprio mestre e o teu próprio Deus. Alguns escolhem seguir o mestre da mediocridade e o Deus dos possíveis, eu prefiro escolher o mestre da grandeza e o Deus dos impossíveis.

Concluirei por mais uma enorme peça de arrogância over 9.000[5]:

 Porque raio os outros teimam em convencer-me que sou superior a eles?

PortugalGate (2)

 

[1] Para quem conhecer bem a série How I Met Your Mother saberá o que entendo por aí. Os outros, ide ver esta série fantástica!!!

[2] Na Suíça da década de 2000 eram os alunos que passavam imenso tempo a estudar, muitas vezes pouco faladores e pouco dados a actividades desportivas. Ou como disse Bill Gates, « aqueles que podem um dia ser o teu patrão ».

[3] Compreensão, nunca disse que eu era alguém de misericordioso!

[4] A pessoa em questão viu os seus pais divorciarem por um dos dois ter descoberto que era homossexual. E eu que sempre tomei as minhas precauções para não a chatear com o tema, aliás tinha explicado que a minha afirmação era estritamente pessoal, se as pessoas queriam divorciar-se, separarem-se, era me totalmente indiferente e bom proveito a elas. Mas na mesma era acusado de montar um ataque velado. Hein?!

[5] Vegeta, Dragon Ball Z versão inglesa (versão original são 8.000).