A confissão de Francisca Van Dunem segundo a “teoria do Daniel Oliveira”

É tão giro ver nos intelectuais da esquerda à direita, comentadores e  comunicação social, uma preocupação  obsessiva com a nomeação do Juiz Sérgio Moro para ministro da justiça brasileira alegando que põe em causa o princípio da separação de poderes. Bem, eu devo ser realmente muito ignorante por ver exactamente o oposto. Porque este medo não é normal num país cuja Ministra da Justiça veio do DCIAP e é juíza do Supremo Tribunal de Justiça. A pergunta é: que “confissão” deu Van Dunem ao aceitar o cargo no ministério ou isto passou ao lado destes comentadores?

Não compreendo como é que um país, que além disto,  tem um PGR nomeado por governos, uma eleição de juízes por via electrónica, se acha com superioridade moral para opinar sobre outros países que, por muito que lhes custe admitir, estão a fazer melhor que nós na área da justiça. Ou já se esqueceram que no Brasil os corruptos já estão na cadeia a cumprir pena (e mais irão), os processos são céleres  e nós além de os ter todos soltos e a viver bem – alguns até já condenados –  não se prevê que sejam julgados ou presos tão cedo.  E mais: há o risco de “prescrição” de uns  e o habitual arquivamento por “falta de provas”, de outros.

Por isso,  é preciso ter muita falta de vergonha para certos indivíduos virem para as televisões e jornais criticar o Brasil,  com um país como o nosso que protege os corruptos descaradamente. Quem não assistiu à substituição desnecessária pelo governo da PGR Joana Marques Vidal com a ajuda do Presidente da República, que estava a fazer um trabalho brilhante no combate aos crimes de colarinho Branco? Quem não viu um sorteio para a escolha de um juiz da Operação Marquês a ser seleccionado à quarta vez colocando de fora Carlos Alexandre que conduziu de forma também brilhante o processo, por outro com currículo vasto em arquivamentos e queixas do ministério público? Quem não viu no passado, Cândida Almeida, Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro a arquivar tudo o que implicava o arguido Sócrates, onde até se recortou literalmente provas do processo?  E andam estes a fingir estarem preocupados com a separação de poderes. Francamente.

Nós como país somos a prova que não há nem nunca houve separação de poderes. Só de fachada. Porque na verdade temos um sistema promíscuo em que o poder político  tem tentáculos em todos os sectores.  E movimenta-se livre, de forma escancarada porque já se sabe que aqui, neste rectângulo, só vai preso quem está fora do sistema. E não há nem nunca houve vontade de mudar isto. Mas disso, os comentadores do regime não falam. Muito menos a comunicação social.

Sérgio Moro de facto é um “perigo” no Ministério da Justiça brasileira, não pelo que o acusam mas pelo trabalho sério, honesto, currículo intocável e principalmente competente que vai fazer de imediato. Porque ele conhece bem os meandros da justiça brasileira. Sabe por experiência o que funciona bem e mal para corrigir  tudo aquilo que durante anos contribuiu para a escapatória dos corruptos nas malhas da lei. E sabe como ninguém o que é que o sistema judiciário precisa melhorar para limpar a corrupção do país. Porque ninguém melhor que um profissional da área para fazer o que tem de ser feito e bem. Ora, se isto é assustador? Claro que sim mas só para aqueles que viveram à custa do sistema corrupto do país.

É o caso de políticos e empresários em Portugal. As ligações da Lava Jato têm tentáculos até nós. Um “super juiz” que já demonstrou ser incorruptível, íntegro e implacável no combate à corrupção, só pode deixar muita gente sem dormir do lado de cá. Porque de repente perceberam que apesar de terem mudado o Juiz Carlos Alexandre, apesar de terem corrido com Joana Marques Vidal, a ameaça continua do outro lado do atlântico com o Processo Marquês e Monte Branco, ligado ao Lava Jato.  Mas que ao contrário daqui, não podem mais controlar. O PT foi corrido.

Por isso diz-se “inverdades” sobre Moro e esconde-se as verdades. E as verdades são: que  a Lava Jato teve seu início em 2014  sem que nada fizesse prever que alguma vez Bolsonaro chegasse à presidência; que essas investigações foram levadas a cabo pela Polícia Federal sendo que Moro só as autorizou; que  Lula viu sua pena ser aceite e aumentada pelo TRF4 e não por Moro; que  Lula viu  sua candidatura ser rejeitada pelo TSE e não por Moro; que Lula teve seus inúmeros recursos negados pelo STF e STJ e não por Moro. Portanto, a “culpa” não foi de Moro mas dos tribunais das instâncias superiores. Logo, a teoria da perseguição política é falsa.

Enquanto por cá se tenta ensinar os outros países a se governarem, nós escolhemos os ministros e secretários de acordo com os laços familiares, amizades e interesses, mesmo sem qualquer experiência, mesmo com licenciaturas falsas, mesmo sem sequer serem da área para que são nomeados. Que o diga Galamba que até conseguiu uma nomeação para secretário da pasta da… energia? Foi escolhido por saber ligar interruptores?

Num país que não privilegia o saber, a experiência como factor fundamental para uma nomeação, jamais terá a eficiência dos ministérios de Bolsonaro. E isso dá medo a quem não interessa que se prove que sem  políticos a fazer política num governo, o país prospera.

Cristina Miranda

Via Blasfémias

 

Serviço público seria fechar serviços públicos

 

Texto lido: https://www.youtube.com/watch?v=5YHbT-GQ5Js&feature=youtu.be

 

Os sindicatos querem reverter a privatização dos CTT para evitar o fecho de agências (fecho relativo já que, segundo um dos responsáveis dos CTT, a maioria vai apenas ser requalificada). Seguindo o mesmo raciocínio, os sindicatos deveriam também pedir a privatização da CGD para evitar o fecho das agências que já teve lugar. Pois a ideia deles é, implicitamente, que sempre que se fecha algo, tem de se pedir uma mudança de dono para evitar o encerramento.

 

Só que claro, os sindicatos não pediram isso… Como estiveram bastante calados quando a CGD fechou alguns dos seus balcões…

 

Já agora, isso acaba onde? Sempre que alguém deixa de fazer algo que queremos temos de o estatizar? Se a minha namorada deixar de fazer felações poderei a estatizar sob o pretexto que deixou de fornecer um “serviço público essencial às necessidades das populações”?

 

Entretanto, o BE anda preocupado com o Interior que está a ficar mais despovoado. E se fica mais despovoado é porque perde serviços públicos, tivesse serviços públicos não perderia população.

 

Ora o Interior perde população desde a década de 1950, altura em que começaram a aparecer os serviços públicos por ironia (ou não). Mas isso não interessa ao BE, são fundamentalmente os fechos de serviços que criaram o despovoamento. Os fechos recentes devem ter criado um despovoamento retroactivo a seguir essa lógica. As pessoas do Interior a partir da década de 1950 devem ter pensado que valia melhor sair de lá, porque dentro de 50 anos os serviços começariam a ser fechados…

 

Há tempos o partido irmão do BE em Espanha, o PODEMOS, declarou que ser patriota é “defender os serviços públicos”, penso que o BE se reverá nessa frase. Reparem bem, é defender os serviços públicos. Não é defender todas as pessoas, não é defender as pessoas honestas que não causam prejuízos, não é defender as gerações futuras. Não, é defender os serviços públicos. O Interior bem pode ficar vazio, mas o importante é continuar a haver correios no meio de desertos…

 

Outra figura do BE, Catarina Martins, disse que os accionistas estão a destruir a empresa. Isto porque pedem dividendos superiores aos lucros dos CTT, comportando-se como “gananciosos destruidores”.

 

É comovente ver esta preocupação com a saúde financeira de terceiros. Esperamos que o mesmo acontecerá quando forem publicadas as contas do Estado, da Segurança Social, do SNS ou das empresas estatais, que como sabemos são exemplos de probidade financeira.

 

Já agora, convém lembrar que quando os CTT foram privatizados, a compra de acções foi aberta a toda à gente. Entre os manifestantes e indignados, e claro Catarina Martins, quantos compraram acções para evitar a “ganância destruidora”?

 

Não tinham ou têm dinheiro para as comprar? Então se não há dinheiro como é que faremos para pagar os impostos que sustentarão os CTT estatizados – pois duvido que os CTT deem  lucros, já que lucro é “ganância destruidora”?

 

Os ricos pagarão os CTT estatais? Ou seja, temos de contar que ricos capitalistas, os tais accionistas gananciosos sejam gananciosos noutras áreas para conseguiremos pagar os CTT.

 

O problema é que a ganância deve ser proibida…