Autor: Miguel Galaz

“Os Muitos Males na Universidade Portuguesa” de Orlando Lourenço

Há que tempos que tenho procurado sintetizar os males da Universidade Portuguesa e não é que já há um professor na Universidade de Lisboa que já nos fez aqui um resumo dos muitos males que sofre a Universidade Portuguesa? Para poder juntar Portugal ao clube de países ditos civilizados e modernos, esta é sem dúvida um dos derradeiros desafios da nossa democracia: tirar a Academia da poeira e da obscuridade do século XIX-XX. Está na hora de pôr a Academia em ordem. Seguem 9 desafios que temos pela frente.


Os Muitos Males na Universidade Portuguesa de Orlando Lourenço

http://webpages.fc.ul.pt/~ommartins/images/hfe/lugares/universidade.htm

Com ligeiras alterações, este texto, que resultou de uma entrevista que os estudantes da minha Faculdade me solicitaram e a que eu acedi com gosto, foi publicado na revista Phallus, Jornal dos Estudantes da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.   

Vou dizer mais coisas negativas que positivas. Contudo, quando estamos interessados em transformar as instituições, este modo de proceder pode ter mais virtualidades do que parece à primeira vista. Devo confessar, porém, que pode ser minha a responsabilidade de ver facilmente coisas negativas à minha volta. Deste ponto de vista, a Faculdade onde trabalho há mais de vinte anos não tem sido (penso que ainda não é) o local ideal para atenuar este meu pendor crítico. Antes pelo contrário! De qualquer modo, depois de referir alguns dos males que afligem a Universidade Portuguesa e que a impedem (e impedirão) de ser uma Universidade de referência em termos internacionais, também hei-de mencionar alguns aspectos positivos. Inútil dizer que estas minhas opiniões são convicções pessoais, convicções que muitos colegas e estudantes podem não partilhar. No entanto, quanto mais errado estiver nas minhas opiniões, tanto melhor. Melhor para a Universidade Portuguesa, para os seus professores e estudantes, e melhor para todos os que nela trabalham. Por justiça, devo também dizer que, felizmente, há excepções relativamente a cada um dos aspectos negativos que mencionarei. Mas é provável que não sejam muitas e, portanto, que só sirvam para confirmar a regra. Estou também convencido que não será de tais excepções que virão grandes discordâncias em relação ao meu olhar crítico.

1.      O maior inimigo da Universidade Portuguesa chama-se endogamia. Endogamia significa pouca transparência e clareza. O termo utilizado por diversos avaliadores internacionais é o de inbreeding, um termo que, literalmente, significa consanguinidade. Quer dizer, protecção dos nossos apaniguados e amigos, mesmo que à custa dos direitos legítimos de outros. De forma não eufemista, endogamia significa corrupção. A palavra é dura, mas deve ser uma das mais apropriadas para a realidade do inbreeding que grassa na Universidade Portuguesa. Como disse, quando a vêm avaliar, os peritos estrangeiros sempre frisam esta triste realidade. Não deve ser, portanto, uma invenção minha.

Há muitos anos que estou na vida universitária e tenho constatado que nela há, de facto, muita endogamia. Os estudantes, porventura, não se apercebem muito dela. É uma questão de olhar. De olhar para a progressão dos professores na sua carreira; para os critérios em que ela se baseia; para a constituição de diversos júris de provas e concursos; e para muitas outras coisas. Reparem nesta pequena/grande diferença. Nas Universidades dos EUA e do Canadá, por exemplo, para ocupar um lugar permanente na Universidade, um professor é, em última instância, avaliado por uma comissão de que, além do dean, não faz parte nenhum professor do Departamento ou Faculdade a que a pessoa em avaliação pertence. A ideia é fazer com que a endogamia fique de fora, ou seja controlada,  pelo menos. E a ideia é também mostrar a quem não é da mesma área ou departamento se o currículo em apreciação tem ou não algo de cientificamte interessante, algo que pode ser apreendido mesmo por quem está fora da.área, departamento ou Faculadade.

Na minha Faculdade, por exemplo, há diversos concursos de cujos júris só fazem parte os pares da mesma área: da Psicologia ou das Ciências da Educação. Assim, os membros dos júris que podiam ser mais independentes não contam. Fica tudo mais em família! Se essa não é a intenção, esse é o seu resultado mais provável. Mas há outros exemplos de endogamia, exemplos que outros colegas de outras Faculdades não teriam certamente dificuldade em recordar. Um dia, um amigo meu foi arguente de uma tese de doutoramento. Como considerou a tese apenas razoável, foi isso que disse na sua arguição. Em nome da endogamia, era suposto que devia ter dito que se tratava de um trabalho brilhante! Como não disse, porque a tese não era, de facto, brilhante, o doutorando em causa deixou de lhe falar. Esse meu amigo nunca mais foi (nem será) convidado para quaisquer outros júris por essa  Faculdade, e esse doutorando recebeu certamente a aprovação do seu procedimento por parte de alguns professores da sua Faculdade e deve ter tido uma progressão rápida na sua carreia académica (que não científica)! Aberrantes que sejam, existem diversas situações semelhantes a esta na Universidade Portuguesa.  São os professores Portugueses mais dados à endogamia que os seus colegas de outras Universidades? Não certamente! O problema tem a ver com aspectos institucionais;  com o sistema, como é vulgar dizer-se. Uma coisa é certa. Enquanto a Universidade Portuguesa não resolver o problema da endogamia, será sempre uma Universidade sem prestígio, de segunda classe, ou ainda pior.

2.      O inimigo número dois da Universidade Portuguesa é a falta de mobilidade dos seus docentes. Em termos metafóricos, os seus professores nascem, crescem e morrem na mesma casa. É na mesma Faculdade que, em geral, fazem as suas licenciaturas, mestrados, doutoramentos, agregações, concursos dos mais diversos tipos e é também aí que dão aulas toda a sua vida. Nada melhor do que este sistema para a formação de grupos de interesse, outros que não o científico.Não digo que os professores deviam ir todos, nos seus anos de licença sabática ou em outros momentos da sua carreira, para Universidades cientificamente prestigiadas que existem por esse mundo fora. Pelo menos, que fossem para Braga, Coimbra, Covilhã, Évora, Faro, Porto, para referir apenas alguns exemplos. Não seria salutar que os estudantes de uma dada Faculdade pudessem ter sessões orientadas por professores que vêm de fora, mesmo que seja de uma Faculdade congénere, mas de uma outra localidade do seu país? Quantos estudantes das licenciaturas da Universidade Portuguesa já viveram situações destas?

Também existe pouca mobilidade a nível dos estudantes. Conhece o leitor alguns estudantes das nossas Faculdade que, por exemplo, tenham feito uma qualquer Disciplina nas Faculdades que não distam das suas mais do que 100, 200 ou 300 metros? E quanto seria cientificamente interessante que os estudantes de Psicologia (ou outra licenciatura) frequentassem, por exemplo, aulas de uma Cadeira dos Cursos de Direito, Filosofia, ou Matemática? Ironicamente, todos falamos agora da Declaração de Bolonha e da mobilidade a nível de países. Enquanto não existir mobilidade interna, a externa será muito mais figurativa do que operativa. Acho que a Universidade Portuguesa não está, de facto, muito interessada na mobilidade de professores e estudantes. Faz o discurso da mobilidade, como faz o da qualidade, mas não o assume. Por exemplo, os concursos para os chamados lugares do quadro (professor associado e professor catedrático) são nacionais em termos de legislação. Quer dizer, podem concorrer os professores da Faculdade onde abre um lugar para ser preenchido e os professores de outras Faculdades que estejam em condições legais de o fazer. Só que isto quase nunca acontece. Quem concorre, em geral, são só os da “casa”. Se o fizerem, os “outros”, sobretudo os que não concorrem com a aprovação tácita do poder académico aí instalado, arriscam-se a ser tomados por intrusos e a estragar o que já estava, por vezes, mais ou menos arranjado. Uma vergonha!  Inútil dizer que quando se abre um concurso já se sabe, muitas vezes, quem vai e não vai ficar a ocupá-lo. E nem sempre em nome de critérios de mérito científico. Conheço casos de professores que nem sequer concorreram a certos concursos, porque, tendo embora mérito científico para serem seleccionados, perceberam que seriam preteridos em função de outros com muito menor mérito. A não abertura de concursos para os quais há vagas em aberto fala também em favor desta triste realidade: não se querer, em última instância, que haja mobilidade (e diversidade) no seio da Universidade. Toda a gente sabe, mas a realidade mantém-se. E viva a mobilidade!

3.      O terceiro inimigo da Universidade em Portugal tem a ver com a (não) famosa pirâmide. Professores catedráticos são muito poucos; para o lugar de associados, já há mais algumas vagas; professores auxiliares são em muito maior número do que os associados e, claro, do que os catedráticos. Se a promoção na carreira fosse baseada em critérios de mérito científico e de qualidade, em princípio, quanto mais elevada fosse a competência, maior seria a posição de um professor. Maior competência significaria mais prestígio para a Faculdade, melhor ensino para os estudantes e maior contribuição para o progresso científico. Uma Universidade sem professores muito competentes, por melhores pedagogos que se diga serem, é uma fraude.  Sendo assim, deveria haver muitos professores no topo da pirâmide, porque seriam esses, supostamente, os melhores professores e os que mais falta fariam (e fazem) à Universidade. A pirâmide, portanto, deveria estar invertida, como acontece, aliás, em muitas Universidade prestigiadas em diversos países. Não quer dizer que os professores devessem ser todos  promovidos, até porque ser professor na Universidade não é um direito fundamental! É sobretudo  uma opção e uma enorme responsabilidade. Mas seriam  certamente promovidos todos os que tivessem mérito. Não devia, aliás, haver um número restrito de vagas para tais posições. Devia ser o mérito, sobretudo o científico, que determinaria a vaga, não o oposto. Como isto não ocorre, em geral, estamos perante mais uma originalidade da Universidade Portuguesa, embora ela exista também em outros países. Em geral, nos que são menos desenvolvidos e que assim continuam, mesmo que o não queiram, a perder oportunidades de desenvolvimento.

A estrutura de pirâmide na Universidade Portuguesa está ao arrepio do que é, hoje, fazer investigação. É uma estrutura mais típica de organizações burocráticas que da actividade de comunidades científicas. O argumento para a existência de pirâmides achatadas na Universidade Portuguesa é o de que não há dinheiro…. É falso! Este é um problema político, muito mais do que financeiro. Além de permitirem economizar dinheiro, os quadros servem, não raras vezes, para seleccionar as mentes menos críticas e mais conformistas, o que está nos antípodas de uma sociedade progressista e interessada no bem comum. Numa palavra, ser competente na Universidade Portuguesa é algo que não é estimulado. Às vezes, ela procede mesmo como se a competência de alguns pudesse pôr em causa o seu estatuto de instituição vetusta, apenas mediana, e cheia de muitos Professores Doutores.

4.      Outro mal da Universidade Portuguesa é seu o carácter verbosoescolástico e burocrático. Quero deixar claro, como já disse, que existem excepções em todas as Faculdades, ou seja, que eu estou a falar em termos gerais. Basta ver o número de páginas das dissertações (de mestrado e doutoramento) realizadas. Teses de mestrado com 300 ou mais páginas abundam. Doutoramentos com 500 páginas ou mais também não faltam. Embora haja excepções notáveis, de tais longas teses, o destino principal é, em geral, ficarem arquivadas no pó das bibliotecas. Ou serem citadas apenas localmente e quando tal é conveniente! São, em geral, palavras a mais e ideias e problemas a menos. Em geral, essas teses são mais um testemunho de capacidade de gestão do saber do que de produção de conhecimento novo. E uma Universidade que não produz conhecimento nem sequer merece esse nome.

O que nós, professores, geralmente fazemos, é ensinar apenas o que os outros pensaram e investigaram, o que é uma tristeza. Veja, por exemplo, a lista de referências nos livros ou artigos que lê, mesmo que sejam em Português! São maioriatariamente de autores estrangeiros. De autores Portugueses, são poucas e, mesmo assim, ditadas muitas vezes mais por razões de conveniência que de qualidade científica. Isto significa que também devíamos ensinar aos nossos estudantes o que nós pensamos e investigamos.  Às vezes, digo aos meus estudantes que, se quiserem saber mais sobre um determinado assunto, podem ler um ou outro artigo que publiquei recentemente numa revista internacional prestigiada. Observo, então, em alguns deles, um sorriso levemente irónico. Tomam por vaidade a expressão de algo que é, ou devia ser, relativamente frequente e banal nos seus professores: contribuir, por pouco que seja, para o progresso científico na sua área de especialidade. É o carácter verboso que prolifera na Universidade Portuguesa que ajuda a compreender que os estudantes tenham uma arreliadora tendência para decorarem textos e artigos, conceitos e expressões, mesmo que não saibam muito bem quais as questões em análise, quais os argumentos que fazem sentido e quais os resultados inteligíveis. Têm nisso os estudantes muitas responsabilidades. Mas nós, professores, temos ainda mais.

Continuará a ser assim se os problemas da Universidade portuguesa não forem seriamente enfrentados. Devo confessar que não estou muito optimista. Os Governos mudam. Todos parecem ter vontade de alterar o estado de coisas mas, depois, nada de importante é perseguido.  Ironicamente, muitas vezes são as mesmas pessoas que tiveram possibilidade institucional de introduzir alterações para melhor, que, mais tarde, vêm  declarar que, afinal, a Universidade Portuguesa está muito atrasada em termos europeus e, portanto, que é necessário transformá-la. Em vez de um conjunto pequeno de medidas profundas, as suas propostas limitam-se à constituição de “grupos de reflexão” que produzem relatórios de 200, 300 ou mais páginas! Para que tudo fique mais ou menos na mesma!

5.      Outro mal na Universidade Portuguesa é ser demasiado hierarquizada. Em títulos, somos, de facto, os melhores! Somos sempre, e logo, Professores Doutores. Talvez seja um modo de compensarmos a nossa generalizada incompetência. Costumo dizer que à Universidade Portuguesa sobra em títulos o que lhe falta em investigação e reconhecimento internacional. Quando alguém obtém o grau de doutor, é logo promovido a Professor Doutor e até os artigos publicados em revistas (Portuguesas) fazem muitas vezes preceder o nome do autor dos seus respectivos títulos. Ironicamente, esse alguém recém-doutorado, ainda que, de facto, muito competente na sua área, pode ficar muitos e muitos anos como Professor Auxiliar, e isto porque as vagas de Professor Associado estão todas preenchidas!  Ao menos fica-lhe o Professor Doutor!

6.      Outro aspecto menos positivo na Universidade Portuguesa, e de que a minha Faculdade é um bom exemplo, é ser, ou querer ser, demasiado profissionalizante. Porventura os estudantes e muitas outras pessoas não estão de acordo comigo. É certamente importante que a Universidade Portuguesa forme bons profissionais. Quem não poderia estar de acordo? Em termos da minha Faculdade, é certamente relevante que os estudantes de Psicologia, por exemplo, possam vir a ser bons profissionais no âmbito da psicologia da educação, da psicologia do desporto, da psicologia clínica, da psicologia da justiça, etc. Só que a preparação dos estudantes para estes objectivos não pode ser feita em detrimento da sua sensibilização para as questões que têm a ver com a produção do conhecimento, do progresso científico, ou da investigação fundamental. E se quisermos ser honestos, é esta sensibilização que, em geral, não ocorre na Universidade Portuguesa. Chegaria consultar as grandes revisões de literatura (os estudos que sumariam o estado da arte numa determinada área de saber) para ver quanto a Universidade Portuguesa está ausente. Quantos são os professores da Universidade Portuguesa que publicam regularmente em revistas prestigiadas com sistema de peer review? É melhor nem sabermos! Como era de esperar, a Universidade Portuguesa tem também resposta para esta lacuna! Publicar nessas revistas para quê? Em geral, são editadas em língua Inglesa e o importante –diz-se– é defender a nossa língua! Assim sendo, chega a propor-se –imagine-se– que as publicações nessas revistas tenham o mesmo valor curricular que as publicadas nas revistas Portuguesas, revistas que, de modo geral, ou não têm um sistema de revisão de artigos, ou, se o têm, é tudo menos credível. Deste ponto de vista, seria interessante conhecer a  taxa de rejeição de artigos científicos submetidos às nossas revistas. Muitas delas, aliás, não existem para publicar novidades científicas, empíricas ou conceptuais, mas sobretudo para servirem de local onde se faz currículo. Em Portugal, revistas de Psicologia, por exemplo, são mais de uma dezena. Se publicassem trabalhos de qualidade, uma apenas era capaz de ser demais.  São estes aspectos que eu pretendo realçar quando falo em carácter demasiado profissionalizante da Universidade Portuguesa. Penso, aliás, que quanto mais a Universidade Portuguesa assumir esta vertente, tanto mais se confundirá com o ensino politécnico. Não tenho nada contra a aplicação do conhecimento, nem nada contra o ensino politécnico.  Mas o conhecimento não é aplicado antes de ser produzido. E é à Universidade que compete esta missão. Aceito que a distinção entre o ensino politécnico e o universitário venha a atenuar-se, talvez mesmo a desaparecer, sendo este, em última análise, o sentido da Declaração de Bolonha. Mas o que define a essência da Universidade é o saber desinteressado e fundamental. Reparem neste pormenor. Há dois anos, a minha Faculdade comemorou o seu vigésimo aniversário. Na área da Psicologia, houve painéis sobe psicologia e educação, psicologia e desporto, psicologia e justiça, psicologia e clínica, etc. Tudo temas muito respeitados. Não houve, contudo, nenhum painel sobre psicologia e investigação fundamental ou sobre psicologia e as (graves) questões teóricas que a afligem. Por exemplo, é usual falar-se da memória como se ela fosse um armazém, ou da mente como se ela fosse uma entidade, localizada, algures, no nosso cérebro. Muitos profissionais da psicologia têm certamente necessidade de apelar para estes aspectos, para exercerem bem as suas profissões. Porque a memória como armazém e a mente como entidade não passam de meras metáforas, tais profissionais correm o risco de, nas suas profissões, não irem muito além do senso comum quando se referem a esses aspectos e neles se baseiam para se reclamarem de profissionais competentes e com uma sólida formação científica. Será que uma aplicação relativamente acrítica pode constituir um bom modelo para um bom profissional? A investigação é algo de fundamental em Psicologia, como em qualquer outro domínio do saber. Se esse não for o caso, o risco é fazermos muitas aplicações, sabendo embora muito pouco. Ou então, por exemplo, convertermos a psicoterapia numa espécie de banha da cobra da psicologia. E ninguém sabe as consequências negativas que daqui podem advir.

7.      Outro mal da Universidade Portuguesa é ser pouco sensível ao mérito.  Em geral, é a obediência, quando não a mediocridade, que são recompensadas. Felizmente, existem alguns sinais de que algo está a mudar. A avaliação por avaliadores internacionais, bem como a existência de Centros de Investigação, avaliados também internacionalmente, são disso prova. Fica este pormenor delicioso. Há dias, um amigo meu sugeria, num Centro de Investigação a que pertence, que talvez fosse aceitável que as verbas que são atribuídas ao respectivo Centro fossem distribuídas no sentido de afectar mais algum dinheiro aos membros que faziam mais investigação e publicavam mais nas revistas internacionais com um sistema de peer review. De modo nenhum! Disse alguém. Isso seria egocentrismo!  Ou então, acrescentou outro membro, isso seria meritocracia! Quando se pensa em estimular a investigação e a descoberta científica não é o mérito que deveria ser recompensado? Se não o fizermos, corremos o risco de fomentar a resignação em vez do entusiasmo, e a mediocridade em vez da excelência. E convém não esquecer que se a excelência pode eventualmente gerar excelência, a mediocridade inevitavelmente gera mediocridade.

8.      Quanto ao oitavo mal, quero dizê-lo com coragem, assumindo os riscos que isso acarreta. A verdade é que a Universidade Portuguesa é demasiado pedagogizante. A pedagogia é um dos mitos dos tempos modernos, um mito que, infelizmente, prolifera dia após dia na Universidade Portuguesa.  A ideia força deste mito é que, na Universidade, as chamadas questões pedagógicas deviam vir em primeiro lugar, antes das questões científicas. Está ainda para vir o tempo em que se saiba quais os critérios em nome dos quais se é bom ou mau professor. Por melhor pedagogo que seja, na Universidade, um professor incompetente será sempre incompetente. Tanto pior se a pedagogia, que às vezes se resume a um certo facilitismo ou a um recurso exacerbado a meios audio-visuais, servir para mascarar a incompetência. Parece ainda que a existência generalizada, abusiva mesmo, de cursos e cursos de Ciências da Educação na Universidade Portuguesa não está a contribuir, tanto quanto seria razoável, para a resolução de muitos problemas do ensino no nosso país, a começar pelos males que afligem a própria Universidade. Mais grave ainda, o discurso pedagógico na Universidade Portuguesa é mais pedagogizante do que propriamente pedagógico. Por exemplo, fala-se muito em pedagogia mas, na verdade, de um ponto de vista formal, os estudantes ainda não são chamados a ter uma palavra sobre os professores que têm e o ensino que deles recebem! Penso que, por exemplo, se devia instituir um sistema em que os estudantes, no fim do ano, avaliassem os seus professores, sendo essa avaliação uma informação importante não só para o seu aperfeiçoamento como professores, mas mesmo para a sua carreira de professores. Não que fosse a palavra fundamental, mas que fosse uma palavra a ser tida em conta. De um modo geral, os estudantes, que não são parvos, percebem com alguma facilidade se os seus professores se esforçam, se são pontuais, se ensinam com entusiasmo, se sabem pensar nas aulas, se fazem ou não investigação, etc. Obviamente, é importante estar atento aos estudantes, entusiasmá-los, saber ouvir as suas dúvidas e coisas do género. Mas um professor que trabalha com afinco, que ensina com entusiasmo e que estimula os alunos no sentido da reflexão, investigação e aplicação há-se ser, pelo menos, um pedagogo razoável. A Universidade ficará bem servida com pedagogos razoáveis! Que não se ponha, porém, a bandeira da pedagogia acima de tudo e em toda a parte! Os estudantes do ensino superior também não são crianças da escola primária, ou pré-adolescentes em crise, numa qualquer escola secundária. É certo que um professor competente não é necessariamente um bom pedagogo. Mas tem condições para poder sê-lo. Pelo contrário, é vão esperar de um professor universitário incompetente que seja bom pedagogo. E o que dizer da possibilidade de um programa de mestrado ou de doutoramento poder vir a não ser aprovado porque, entretanto, os votos de funcionários e alunos foram em maior número do que o dos professores?

9.      Estava a pensar numa lista de 10 males capitais na Universidade Portuguesa. Vou apenas referir mais um. A Universidade Portuguesa é individualista e invejosa. Individualista, por exemplo, no sentido em que fomenta pouco a constituição de equipas de trabalho e de investigação. Invejosa, por exemplo, no sentido em que tem dificuldade em lidar com aqueles que, no seu seio, vão além da mediania reinante. Na Universidade Portuguesa, a regra é os professores trabalharem de forma individual e isolada.  Os seus projectos de pesquisa, quando existem, raramente são conhecidos por colegas e estudantes, mesmo da própria Faculdade ou Departamento. Como os professores também não têm, em geral, o que se poderia chamar de aulas de laboratório, aulas com um número restrito de estudantes interessados nos temas de reflexão e pesquisa do professor em questão, a tendência para o individualismo e isolamento é ainda maior.

A não existência generalizada de programas de doutoramento na Universidade Portuguesa torna ainda as coisas mais complicadas. Isto é, menos submetidas ao conhecimento e discussão alargada e mais propícias à endogamia. É raro que o estudante universitário Português se inicie em actividades de investigação. Em geral, ouve falar delas. Sobretudo do seu método! Sobretudo se for estudante de Ciências Sociais e Humanas e, mais ainda, de Ciências da Educação! A distância para a ideia (errada) de que a investigação consiste especialmente em passar testes, escalas, questionários ou realizar uma qualquer entrevista fica então encurtada.Por tudo o que já disse, também se percebe por que razão a Universidade Portuguesa tende a tratar com alguma mesquinhez e inveja os seus membros que vão além da mediania nacional. Acabam por ser maus exemplos! O melhor é não lhes dar muito reconhecimento! Às vezes atinge-se mesmo a parolice e uma subserviência ridícula. Se um professor Português, reconhecido internacionalmente, proferir uma conferência na sua Faculdade ou no seu país, arrisca-se a ter a sala quase vazia. A não ser, claro, que seja uma figura pública, política, ou que detenha poder de influência na sua Faculdade ou Departamento. Mas se vier um professor estrangeiro, um daqueles que é mais ou menos desconhecido mesmo no seu país, o mais provável é que tenha muita audiência à sua espera, embora no fim, em geral, não lhe sejam colocadas quaisquer questões. Existe também o reverso da medalha. Se um professor nosso já se tornou, de facto, famoso (veja-se o exemplo do Prof. António Damásio), então estamos facilmente disponíveis para o endeusar. Mesmo que tenhamos de renunciar a um certo espírito crítico e de irreverência, sem o qual a investigação científica tende a estiolar.

São estes alguns dos males que afligem a Universidade Portuguesa. Penso que não exagerei. E oxalá deixe de ter razão em breve. Mesmo assim, é a Universidade que assegura a formação dos jovens, jovens que –assim o espero– a tornarão certamente melhor. E com todos os seus defeitos, no nosso país periférico e pobre, é ainda a Universidade, em especial a Universidade pública, o lugar privilegiado para que aqueles que têm disponibilidade e meios para estudar, ensinar e aprender, o possam fazer com exigência e profundidade.

Na Política Não Há Equívocos

Cuidado Portugal. Estamos a ser alvos de uma encenação digna de vários Pulitzers e Oscars ao magote.

Vou ser claro: na política não há nada que aconteça por acaso, e neste Partido Socialista, nada acontece que não passe pelo crivo do António Costa. Alias, nada acontece que não seja aprovado pela oligarquia que sustenta a atual “solução” política e mantém os outrora cães raivosos da extrema esquerda, dóceis e no colinho do Costa.

Por isso se há quem desconfia neste teatro todo à volta da repentina purga do Sócrates, da virgindade ofendida deste mesmo e do seu abandono do Partido que ele tornou sua quenga, se há quem ache isto tudo muito conveniente, é porque é.

Há razões para ter escolhido este momento, e tudo tem a sua sequência de eventos:

  1. Aproveita-se o caso Pinho para tornar este numa espécie de Maddoff: vamos atrás do banqueiro, desde que não seja demasiado grande. Anda-se a investigar o Salgado, mas já lá vamos.
  2. O PS cai em cima do Pinho, anexando ao mesmo assim por acaso a estrela da Operação Marquês, mas sem entrar em detalhes. Têm vergonha, como as crianças que são apanhadas com a mão nas calças. O PS assim tenta limpar a sua imagem, com mais de um ano à frente para fazer campanha eleitoral para uma maioria absoluta e não tem de se preocupar (pelo menos não muito) das imagens do julgamento da Operação Marquês em pleno ciclo eleitoral. Um PS com maioria absoluta no parlamento orquestrado pelo “linchamento” de um “pobre provinciano” que ousou ser PM há muito tempo. Costa, Santos Silva, Galamba e companhia são políticos sem escrúpulos, são alunos do Maquiavel, e para eles a única coisa que lhes interessa é agarrar com unhas e dentes o poder. Não comprem o que o sonso do Costa vos tenta vender ao dizer que “foi apanhado de surpresa”. O mesmo Costa que em véspera de um Congresso manda SMSs para pôr as tropas em ordem, agora é apanhado na curva por um dos seus braços direitos? Não me lixem…
  3. O Sócrates ganha muito, mas mesmo muito ao demitir-se. Leva uma “sova” encenada e ocupa vários ciclos mediáticos que como sabemos é o principal objectivo do seu “vaidoso” ser. José Sócrates consegue mais uma vez fazer-se de vítima e ajuda o seu Partido Socialista a branquear um pouco a sua imagem e entrega ao António Costa uma provável vitória eleitoral por desassociar-se da orla Socialista.
  4. Alguém já se esqueceu que daqui a 5 meses haverá ou não a recondução da Joana Marques Vidal à Procuradoria Geral da República? Não me surpreenderia em nada ver a PGR que tem travado um combate acérrimo à alta corrupção que massacra o nosso país, sair agora do filme, colocando lá mais um amigo do Costa, do PS e da dita oligarquia, que pouco a pouco começa a arquivar processos “por falta de provas concretas” e pouco a pouco devolvem o Mecanismo ao seu antigo esplendor.
  5. Salgado volta para casa descansado e Sócrates vê o processo contra ele perder força, livrando o mesmo eventualmente de qualquer condenação. Afinal ele já foi julgado na praça pública, já poderá reunir um movimento independente e lá se candidata a Presidente da República porque este sujeito ainda tem muita gente que o apoie (fala alto da qualidade de pessoas que por aí andam) e tal como Lula, não tem vergonha na cara.

Eu espero bem que esteja enganado e que de facto os nossos políticos sejam tão incompetentes como demonstram ser. Só que esta malta acham-se um máximo e deliram com as jogadas políticas dos protagonistas do House of Cards. 

Eles vivem apenas para isto, eles jogam para o poder e para manter o poder. Menos poder é a morte destes artistas. Farão de tudo para continuar a cavar o seu legado às custas dos portugueses que assistem impavidamente a este circo.

Desengane-se quem acha que isto é apenas mais um episódio nesta telenovela rasca que temos presenciado. Esta malta partilhou demasiado tempo juntos e planearam demasiada coisa ao longo de décadas para ninguém saber nada, para estarem todos surpreendidos com as acusações. Isto infelizmente tem tudo um fio condutor e jamais será condenado à prisão um ex-banqueiro do regime e um ex-primeiro ministro. O António Costa não deixará que a oligarquia que tanto fez para o eleger fique mal.

Demasiada gente enriqueceu graças a um mecanismo que foi já existia antes do 25 de Abril e que foi apenas re-montado após a revolução de 1974. Sócrates e Salgado foram apenas mais uns que foram descobertos, mas se formos até ao fim deste processo todo, não creio ter-mos cadeias suficientes para albergar todos os participantes desta teia de interesses. É demasiada gente e tal como na termodinâmica, o dinheiro não se destrói, apenas transfere de mãos. E já viram quanto dinheiro foi ao longo de décadas?

Sinto que nos têm andado a entreter com isto tudo para parecer que até têm feito algo para trazer nem que fosse uma sombra de legitimidade a uma república que com a sua democracia não-representativa e a sua justiça inerte, está hoje cada vez mais poder.

Isto tudo parece uma muito má teoria da conspiração, mas infelizmente, parece-me cada vez mais ser o destino de Portugal: eles comem tudo e não deixam nada, e nós deixamos, porque sim.

Republicação: O meu mundo não é deste reino de Maria João Avillez

Por vezes, alguém consegue colocar preto no branco, exatamente aquilo que penso sobre o nosso estado da nação. Por vezes nem vale a pena citar nem parafrasear nem recriar aquilo que foi dito tão bem. Por isso coloco aqui um dos textos que mais gostei de ler no últimos tempos, que muito diz, muito faz pensar e lança a questão: que fazemos?

O meu mundo não é deste reino de Maria João Avillez

1. Vigiam-nos. Estão atentos. Estão de serviço. Mobilizados pelo pensamento único, uma nova forma de vida. Nunca se cansam. São ferozes na vigilância, implacáveis na perseguição, sonoros na censura. A nova cartilha e os seus mandamentos não incluem desvios. A nobre arte de debater, a esgrima dos argumentos, a relevância da dúvida, o valor da discordância, estão proibidos pela própria natureza da subversão civilizacional em curso.

Os novos proprietários querem-nos fora de pé, ao largo de nos próprios, cortados pela raiz do que somos e representamos. Querem que nos transfiguremos noutros, atraiçoando o nosso “nós” individual e anestesiando o “nós” colectivo.

Querem-no com ferocidade, não usando de contemplação: o castigo terá apenas o limite da sua própria obscenidade: a intimidação, a denúncia, a manipulação, a mentira, o escárnio público, abater-se-ão sobre os prevaricadores, qual raio ou trovão. A extrema-esquerda, radical de seu nome próprio, é aliás exímia na aplicação destes instrumentos que manuseia com a habilidade ácida do ódio. Temo-lo visto. É preciso licença prévia para pensar e depois dizer alto o que se pensou.

Qualquer “forma mentis” que não encaixe no novo código de conduta está automaticamente banida do seu direito de cidade, privada do oxigénio da liberdade e da vitamínica possibilidade da interrogação e debate. Há uma guerra cultural em curso.

2. Os novos proprietários das mentes&costumes não valem grande coisa eleitoralmente, nunca governarão sozinhos, o seu número no país é inversamente proporcional ao eco mediático que os propaga mas para quem não estiver distraído nada disso tem porém grande importância. Não tem, porque não é disso que se trata. É mais substancial, mais fundo, mais grave. Por isso, eles valem pelo que os deixamos conseguir valer.

Valem pelo aparente êxito com que corroem os alicerces que sustentam o berço civilizacional de onde somos, valem pelo modo como vão calcinando o que conhecemos como nosso mundo. Valem porque exibem o fôlego e a mestria dessa demencial empreitada que é o determinarem-nos: formantando-nos as mentes, anestesiando–nos as reações, domesticando-nos o instinto, incutindo-nos o receio de destoar. De ser expulso do coro onde impuseram uma nota só.

E valem, claro, pela desenvolta segurança de quem se implantou – cá dentro e lá fora — com estratégia e método. Ocupando lugares chaves tão relevantes como a Academia e a Media, convocando a Ciência para o festim, não descurando parte dos sistemas partidários, não esquecendo as representações parlamentares, cuidando da propaganda e do espectáculo. Oficializando enfim um novo mapa cultural e um guia moral (?) desconexos, híbridos, convulsivos, sem raiz. Saídos do nada. Em nome de uma abstrata “culpa ocidental” abatem-se valores, padrões, referências, história, memória (mas saberão eles que não há organização social capaz de vencer sem valores e sem passado?). Abatem-se como árvores, em nome do repúdio pela herança civilizacional recebida. Os novos proprietários exigem-nos numa palavra, que mudemos de pele cultural.

A isto se chama uma guerra.

3. Lá fora tudo “isto” está em estado de mais adiantada convulsão mas é fraco consolo: algo nos separa – para pior — do resto da Europa democrática e dos Estados de Direito a que gostamos de dizer que pertencemos. Separa-nos uma fractura que agrava a vulnerabilidade da nossa condição face à dimensão da catástrofe: o caminho está livre (ou parece livre) para ela, não há entrave, nem resposta aos novos proprietários. Refiro-mo obviamente a esse imenso espaço (metade do país?) do PS para a direita. Pouco o representa, poucos dele cuidam a não ser partidos exaustos e envelhecidos e meia dúzia de respeitáveis (e resistentes) políticos ou intelectuais. Não há instituições que se reclamem desse espaço, há pouco vigor, são escassas as iniciativas doutrinadoras ou políticas por ele produzidas. A discordância é expressa quase em surdina e desastradamente, e basta pensar na CIP para só citar um exemplo. Quanto à Universidade, faz pagar caro a professores e mestres fora do reduto da esquerda e agora fora do jardim envenenado do pensamento único ou da tirania do politicamente correcto.

Desde 1974 que a “media” ignora, despreza ou suporta mal a “ideia” de direita ou mesmo de centro-direita, troçando ou destruindo os seus líderes e ajudando a acabar com eles, mesmo que o voto os legitime. Ao contrário da Espanha, França, Bélgica, Alemanha, Holanda, e etc., em Portugal nunca se impôs, com substância e carácter definitivo, um jornal ou algo de parecido com um órgão de comunicação social de centro-direita, conservador ou menos conservador. O qual, como sucede nos países citados, funcionaria também como catalizador/produtor de opiniões, ideias, movimentos, debates ideológicos, pensamento político. Mas nem isso: o espaço continua semi-orfão, inorgânico, mal-amado. É um mistério.

A sociedade civil é tão débil quanto isso? As elites tão frágeis? A dependência do Estado tão avassaladora? Há metade do país sem voz nem vontade? O comprometimento deixou de ter significado e perdeu poder de convocatória? Não sei mas a fractura é grande. Do outro lado da guerra cultural em curso há quase só anestesia, mutismo, distração, indiferença. E simpatia até, quem sabe?

Impressiona. Ou não?

4. Posso parecer um daqueles automobilistas que entram em contra-mão na auto estrada achando que todos os outros estão enganados. Mas, caro leitor, o pior de tudo seria achar que subitamente exibo um fatal pessimismo ou que exagero, ao dizer-lhe que o meu mundo não é deste reino (e o seu, é?). Que me deu para aqui e se calhar acordei mal disposta. Não se iluda. Não conduzo em contra-mão, não estou fora de pé, sempre pude com os inimigos e tenho-me livrado, graças a Deus, dos “amigos”. O que não é mais possível é acordar e constatar que aquilo que na véspera se tinha como normal afinal não é. Por decreto emitido pelos novos proprietários, deixou de ser.

Far-me-ia por isso alguma impressão não ser capaz de contribuir para um alerta vermelho de perigo. Perigo sério, porque isto é a sério.

 

O Homicídio da III República Pelos Cobardes da Classe Política

Há 3 semanas, ficamos horrorizados com o que se via na televisão: o caos, o inferno, o sofrimento, todo o terror de Pedrógão, num ciclo mediático interminável. O nosso horror perante os 64 mortos acumulou-se ao terror de descobrirmos que o nosso armamento está à mercê de quem quiser levá-lo. Num curtíssimo espaço de tempo percebemos que não temos um Estado, mas sim um repositório de gente inútil a quem chamamos políticos que vivem a boa vida à nossa custa. Parece que sempre que a cortina cai com situações difíceis como estas, vão até aos limites da terra para desvalorizar a tamanha vergonha que é a sua flácida gestão de recursos públicos e o quão impotente o seu desempenho quando as coisas correm mal.

Tenho tido algum receio em escrever este texto, mas o que se tem passado nas últimas semanas força-me a dizer o seguinte: a III República foi morta.

Para verificar este facto temos décadas de uma devastadora e multipartidária rede de corrupção, interesses, manipulações e gastos criminosos do erário público que levou o país a 3 bancarrotas; hipocrisia militante e desonestidade política desta classe de ditos elites é repugnante, ora hoje dizem uma coisa, ora amanhã dizem o contrário; escândalos sucessivos de prevaricação, favoritismo, branqueamento, abuso de poder, destruição de capital, de isto e daquilo, e por aí fora. A história dos últimos 43 anos não é uma que se possa definir como sendo um grande sucesso para a maioria dos Portugueses.

Após décadas de uma aberrante apatia para o bem geral dos portugueses, chegamos ao cúmulo no dia 17-06-2017, aonde 47 pessoas foram mortas numa estrada e outras tantas abandonadas à sua sorte para morrerem no inferno. Depois veio Tancos. Entretanto não há uma responsabilidade que se veja entre uma rede sem fim de falhas, seja no SIRESP, seja na GNR, seja na Proteção Civil, seja na coordenação do MAI, seja do exército, seja do Ministério da Defesa, seja do que seja. Tudo falhou, mas ninguém tem culpa. O sistema fracassou grotescamente, e não há uma alma que nos venha pedir desculpas.

Vou mais longe do que ontem no debate sobre o estado da nação. O Estado entrou em colapso é verdade, e com ela veio outra vítima. Sim, a III República morreu pois deixou efectivamente de haver qualquer gota de confiança, deixamos de acreditar e de confiar na plenitude do que nos dizem e as suas desculpas esfarrapadas e deturpações puxadas já nem sequer queremos engolir.

Sem confiança não há Estado logo sem confiança não há Governo. Sem confiança vemos o que de facto temos: uma aristocracia, gorda e anafada cuja principal preocupação é proteger-se a si própria, alimentada e sustentada por todos nós, o reles plebeu eternamente ingénuo que lhes enche os cofres e as suas grosseiras barrigas.

Nada por acaso, na semana passada dei por mim a reler a Declaração de Independência dos EUA (quem nunca leu, merece perder uns minutos a conhecer este texto todo) e logo no início do texto, encontramos esta frase:

“… a fim de assegurar esses direitos (vida, a liberdade e a procura da felicidade), governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e organizando-lhe os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para realizar-lhe a segurança e a felicidade.”

A principal razão para a independência está aqui, um pressuposto que é aplicável a qualquer nação deste nosso planeta: SEMPRE que um governo se torne DESTRUTIVO da nossa liberdade, das nossas VIDAS, temos o DIREITO, o DEVER de alterar ou abolir esta forma de governo. Se um estado não consegue criar as condições para nos sentirmos felizes e seguros, então não é estado que valha ser mantido. Temos que ser exigentes, tal como são connosco quando chegamos à hora de pagar impostos. Esperam tudo e mais algum de nós, exigem a nossa paciência infinita e depois rezam para que não nos lembremos das suas traições sucessivas que compõem a sua desgovernação continua.

E porque é que toleramos isto? Porque é que devemos passar por sucessivos governos a transferir os lucros do nosso trabalho para financiar falências de bancos e empresas e sucessivas bancarrotas de um Estado criminosamente gerido? Tanto doutore que por ai anda, tanta ciência política, mas ainda não vi ninguem a cienciar coisa nenhuma. Tal como fez a aristocracia durante séculos, estes agora andam a gozar com a nossa cara, e não é por termos eleições de vez em quando que temos democracia. Longe disso. Nós temos democracia porque existem consequenciais verdadeiras e palpáveis para quem viola e abusa do poder que é confiado a quem elegemos. Se não existem consequências, se não existe um sistema de justiça que se veja, se não há respeito pelos cargos que se ocupa, se não se tem noção da diferença entre politiquice e governação, ora então não temos democracia.

A meu ver, a partir do momento em que 64 pessoas foram mortas no inferno, houve uma 65ª morte: a Terceira República. E embora hajam responsabilidades pelas a apurar pelas mortes destas vítimas, os responsáveis pela morte da III República são óbvios. Sabem aquele feeling que têm tido no fundo do vosso estômago ao longo das últimas semanas? Aquele sentimento que algo está muito mal? É o que acontece quando nos deparamos com a realidade por detrás da cortina, a realidade que têm feito de tudo para se manter escondida.

Qual a diferença de outras calamidades? É que hoje em dia os meios de comunicação já não se resumem à televisão, à radio e aos jornais. Hoje temos meios que vão mais longe, que vão até ao terreno se for necessário, e a verdade pode ser exposta perante todo o mundo enquanto temos uma máquina inteira a tentar esconder o sucedido. E a principal diferença com Pedrógão? Houve quem desta vez dissesse BASTA, e essa voz é crescente e não se cala, não se esquece e não vai largar este tema: desta vez cruzaram uma linha e não há volta a dar.

Da comunicação social à classe política, andam a bombar ao máximo para esconder a morte da III República Portuguesa. O Thomas Jefferson dizia são necessárias revoluções de geração em geração, pois os valores naturalmente evoluem e creio que não estou sozinho em dizer que se antes não me revia neste sistema, então agora ainda menos. É elitista, é paternalista, é lento, é demoroso, é incompetente, é o oposto de profissional e pior, é cúmplice da morte dos nossos compatriotas.

Não percebo como é que é aceitável ter um Estado com a dimensão do nosso que funcione tão mal, que serva tão mal a grande maioria das pessoas. Não percebo como é que se despreza tanto quem inova, quem cria, quem trabalha, quem faz acontecer, e valoriza principalmente quem cala, quem obedece, quem concede, quem segue, quem baixa a cabeça. Não percebo.

A 3ª República é constituída por todo um sistema político e económico que não se aplica aos tempos que correm. Não entendo a necessidade de ter uma classe altamente profissionalizada numa única actividade, a política, que não exige experiência profissional para exercer cargos de alta responsabilidade e remuneração. A politica por si só não é razão suficiente para se exercer um cargo, e infelizmente, a grande maioria de quem governa, fá-lo pela sua competência política, e raramente pela sua competência profissional.

E isto trata-se de toda uma classe, que fora aquilo, que sabem eles fazer? Serem advogados? Serem professores universitários? Interpretes eruditos daquelas tretas a que eles chamam de “leis” que são eles que escrevem para posteriormente saber precisamente como furar em interesse deste ou daquele grupo económico?

Podemos e devemos exigir melhor, e temos que começar IMEDIATAMENTE a conceber a IV República. Chegamos a este ponto por alguma razão e deixar atrasar esta transição inevitável para um sistema que seja, de facto, justo, só nos aproxima cada vez mais a um país do terceiro mundo, ou na pior das hipóteses, conforme idealizam Jerónimo e as Mortáguas, a Venezuela.

Temos que garantir que este ciclo de poder que se fixa única e exclusivamente numa pirâmide invertida de corrupção e incompetência é quebrada de vez.

Andam todos a manter o pó bem alto para que não vejamos o cadáver que é a III República, mas um dia, o pó irá assentar, e por detrás desse cadáver, tal como aconteceu com as 64 vítimas dos fogos, estaremos nós. Porque quando a coisa aperta e o povo exige liderança, só podemos contar connosco. Os outros, é sabido, vão para longe, vão para Palma de Maiorca ou vão para a Assembleia da República insultarem-se uns aos outros. Efectivamente nada é feito, e não sentimos nem mais confiança nem mais segurança.

Sendo assim, digam-me, precisamos deles para o quê?

64 Razões Para Demitir-se Sra. Ministra

1.

1.
Miguel A Lopes – EPA

2.

2.
EPA

3.

3.
LUSA

4.

4.
LUSA

5.   6.   7.

8.

8.
Patricia De Melo Moreira – AFP

9.  10.  11.

12.

12.
Patrícia De Melo Moreira – AFP

13.  14.  15.

16.

16.
DR

17.

17.
Paulo Novais – EPA

18.    19.

20.

20.
Rafael Marchante – Reuters

21.  22.  23.  24.

Será que ainda não percebeu?

Precisa mais?

25.

25.

26.

26.
António Cotrim – Lusa

27.  28.  29.  30.  31.  32.

33.

33.

34.

34.
Lusa

Fracasso.

35.

35.
Paulo Novais – Lusa

Desastre.

36.

36.
Rafael Marchante – Reuters

Um absoluto horror.

37.

37.
Patricia De Melo Moreira – AFP

F. R. A. C. A. S. S. O.

38.  39.  40.  41.

Será que ainda não entendeu a dimensão do que aconteceu?

42.

42.
Patrícia De Melo Moreira – AFP

Perante a dimensão dos estragos, perante a quantidade dos MORTOS, é impensável que ainda não se tenha demitido.

43.  44.  45.  46.  47.  48.  49.

Aconteceu sob a sua vigia.

O caos foi total. O resultado? A pior catástrofe da nossa 3ª República.

Perante a desorganização, quem melhor conhecia o terreno, quem poderia melhor conduzir o combate não teve sequer oportunidade de dar indicações, apresentar as suas opiniões, partilhar a sua experiência. Acreditaram que quem vem de fora sabe sempre melhor que quem lá está, só porque detêm de títulos e “cargos”.

Explique exactamente do que é que serviu a sua presença no terreno?

Para o que é que serviram as afirmações do Presidente da República, dizendo que tudo o que podia ter sido feito tinha sido feito enquanto o número dos mortos aumentava escandalosamente?

Era para se sentirem melhor perante o vosso falhanço colectivo?

Era para não terem que sentir a verdadeira e derradeira responsabilidade do vosso fracasso?

50.

50 - Rafael Marchante Reuters

Demita-se

51.

51.
Patricia de Melo Moreira – AFP

Demita-se.

52.

52.

Demita-se e peça desculpa.

53.

53 - AFP PHOTO PATRICIA DE MELO MOREIRA

Mas diz que não se demite, que teve “os piores dias da sua vida”.

E nós?

E nós que estivemos impotentes enquanto os nossos compatriotas morriam às dezenas?

E nós que passamos horas sem fim a espectar este terror?

Da sua vida???

E a vida de quem voltou às suas casas e encontrou nada, apenas cinza?

E as vidas de quem voltou às suas casas e agora tem que enterrar os seus parentes e vizinhos?

E as vidas de quem voltou às suas casas, que por acaso sobreviveram, só para descobrir que tinham sido saqueadas por escumalha que nem me atrevo a chamar de vida humana?

E as 64 vidas que já não serão vividas?

O “pior dia da sua vida”?

As palavras que deveria proferir, e já, para além de um pedido profundo de desculpas, sublinhado com o resto de dignidade que lhe resta por algum dia ter aceite um cargo para o qual não tem a ponta de competência ou habilidade que se veja para exercer, deviam ser apenas: “demito-me”.

54.

54.
Patricia de Melo Moreira – AFP

55.

55.
Paulo Cunha – EPA

56.

56.
Patricia de Melo Moreira – AFP

57.  58.

59.  60.

61.

61 - LUSA

Perante o enterro das vítimas, está na hora de pedir desculpas. Não é assumir culpa, não foi a Senhora que causou o fogo, mas deve pedir desculpa aos mortos, aos moradores da região, a Portugal.

Isto não se trata de política, trata-se de dignidade, de confiança.

Isto não se trata de esquerda ou de direita, trata-se de sentido de dever, sentido de Estado.

Você não é Ministra. Você está Ministra, e a verdade é que com a extinção da última chama, já não devia estar perto desse cargo.

Entregamos a nossa confiança ao Estado para que o Estado nos proteja, e ao invés o Estado confia no povo.

Falharam gravemente. Já não há confiança.

Deve assumir a responsabilidade perante o que se passou.

Quem detém a responsabilidade perante as autoridades que fracassaram na protecção de 64 almas lusas deve ser responsabilizada.

62.

63 bombeiros galegos

Mesmo na hora em que mais precisávamos, os nossos irmãos galegos vieram para ajudar, movidos por uma força sobre-humana que os impedia de presenciar o terror na televisão. Organizaram-se e puseram-se a caminho.

A entrada deles no nosso território foi recusada por si, demonstrando a sua plena incompetência e a incapacidade da sua equipa em liderar com qualquer eventualidade que fuja ao status quo. Não sabem lidar como o que não se espera, logo não podem ter a vida dos Portugueses nas vossas mãos.

Não só perdeu a nossa confiança como dos nossos amigos, dos nossos vizinhos, dos nossos irmãos.

Como irão confiar em si na próxima vez? Nós pedimos ajuda aos céus, e a Europa respondeu, os Espanhóis responderam e vieram! E nessa hora disse que tinham “excesso de voluntarismo”, insultando a honra quando o que os chamava era das mais nobres das intenções: salvar vidas, salvar vidas Portuguesas.

63.

64 - Joana Bourgard RR

Demita-se Sra. Ministra. Não tem condições para governar. O povo já não confia em si. Não é só confiança no Estado e no governo, é a confiança que temos na Terceira República que está em causa.

Chegamos à severa conclusão que da maneira como isto está organizado, Portugueses morrem. Sem responsabilidade, irão morrer ainda mais.

64.

62

Demita-se Sra. Ministra, porque estamos fartos de ver o nosso país a arder e os nossos heróis a padecer.

Demita-se Sra. Ministra.

Demita-se.

 

 

O Que Eles Querem é Governar Uma Terra Queimada

Hoje, neste mesmo blog, o Gaspar Macedo veio tocar num tema que à data tem sido ignorado, para nosso mal comum, mas ainda bem que o fez, porque acabou por inspirar esta minha contribuição de hoje.

No meio desta barbaridade toda que temos presenciado, especificamente em Londres, confesso que as respostas das autoridades e as medidas que têm sido apresentadas por quem nos “representa” faz bola para nos proteger; no entanto, faz muito proteger a classe a que eles pertencem, sejam as suas carreiras políticas, seja o seu património e dos seus amigos.

A verdade é que a única coisa que tem travado o terrorismo na Europa deve-se a uma intensificação do trabalho policial, de coordenação internacional neste meio e de investigação astuta e eficaz cujas melhorias já tem rendido resultados bastante positivos. Fora isso, os nossos queridos representantes tem feito pouco ou nada para travar está maré de terror que ameaça instalar-se nas nossa vidas.

Mas voltando ao artigo do Gaspar, houve uma frase que me ficou na cabeça: “Comecem por proteger o povo desprotegido e desproteger os políticos superprotegidos.”

E aqui está uma questão crítica que entretanto se perdeu no meio do mediatismo. Não se iludam: tudo o que acontece serve para nos manter focados em tudo menos neles e não vale a pena estar aqui a criar uma lista longa pois vocês sabem perfeitamente de quem falamos, mas é óbvio e está na cara que não se está a fazer nada com base, estrutura e objectivos palpáveis para travar a barbárie do terrorismo na Europa. Todas as soluções são de curto prazo, caras, e más, pois não resolvem nada na origem e não fazem nada a médio-longo prazo, pois primeiro pensa-se nas eleições, o resto que se lixe.

No entanto, temos que ser testemunhos à correria para ver quem é que condena o ataque primeiro no Twitter, quantos líderes mundiais marcham contra o terror, e já está, somos fortes, não nos vencerão. E é esta a imagem que nos é transmitida, a mensagem que nos passam: não precisamos de fazer nada, apenas devemos manter a calma e continuar serenos.

Ora aí está mesmo o problema. Porque não devíamos estar nem calmos nem serenos. Tanto isto como com a apresentação de contas e respostas a TODAS as nossas questões (ainda não percebo como é que um governante tem o desplante de RECUSAR às questões colocadas na Assembleia da República), temos que exigir TODOS OS DIAS que sirvam o maior interesse nacional e Europeu, ou seja, os cidadãos Europeus, seja qual for a raça, religião ou estilo de cabelo, eles estão de serviço, são nossos representantes, devem salvaguardar todos os nossos interesses (e não apenas de alguns) e fazer o seu trabalho. Não o estão a fazer, andam a viver às nossas custas e ainda gozam na nossa cara a dizer que está tudo bem.

E é aqui que entro em divergência com algumas vozes. O ser humano tem uma necessidade de compreender todo o horror reduzindo-o a questões de preto e branco, esquerda e direita, nós contra eles. Mas a realidade é outra, e como sabemos, tudo, mas TUDO é bem mais complexo que isso. Nenhum de nós pode ser definido com uma só categoria e andar a proferir que o problema disto tudo é X ou Y e gritar isso até à exaustão, é redutor e só contribui para a continuação do problema, alias, o excesso de simplificação deste problema do terrorismo, só ajuda o recrutamento do Daesh. Tal como a história do mundo ocidental não é simples, e toda a barbaridade que já cometemos não é reduzível apenas à religião, também temos que ser mais frios nesta analise, porque incrivelmente, o inimigo principal não está numa cave a planear, mas sim nos corredores do poder, a gozar do nosso pânico pleno.

Para ser claro: acuso os nossos governantes de serem responsáveis pelas mortes de cada atentado terrorista. Seja o Al Qaeda, Daesh, IRA, ETA, seja quem for, há responsabilidades que devem ser apuradas, e não somos nós que não estamos a topar a mensagem. Nós ouvimos claramente a mensagem, é aberrante e é contra tudo o que somos como sociedade plural e liberal, e é claro que mexe connosco (acho que move com qualquer pessoa) ver tanta dor e tanto sofrimento por parte dos familiares e dos sobreviventes das bestas que por ai andam.

Agora, temos que ir mais alem e reconhecer que existem responsabilidades, que não há uma acção sem uma reacção, e que enquanto não levantar-mos a nossa voz e exigir o que nos é devido, sem sacrificar direitos civis, não iremos tolerar tanta incompetência institucional.

Vivemos um momento grave existencial que é alimentado por uma tempestade perfeita de crises sociais, políticas, financeiras e económicas, e garanto-vos que é de extrema conveniência para quem nos governa que andemos minados de exaustão e medo.

Nenhum de nós pode aceitar isto, nenhum de nós pode aceitar não sentir segurança nas nossas comunidades, nos nossos países, e para isso necessitamos de ter respostas uniformes e concertadas contra estas ameaças. Só que para isso é necessário tomar atitudes, atitudes que podem ser contrárias aos interesses do poder instalado.

É necessário reconhecer que o terrorismo é financiado principalmente pelo petróleo. É através do petróleo vendido no mercado negro que o Daesh encontra o seu financiamento, petróleo que por sua vez é-nos vendido pelos países árabes. Para além disso, compramos petróleo à Arábia Saudita que notoriamente financia mesquitas Wahabistas, que pregam a versão mais intolerante e retrograda do Islão, que não acolhem um único refugiado, e por cima disso, ainda lhes vendemos armamento aos magotes.

Enquanto andar-mos a chuchar activamente nesta teta de ouro negro, eles continuarão a vender-nos por um lado, e a financiar ataques por outro. E isto não é uma questão de religião, é a maneira deles de destruir a União Europeia, da mesma maneira que a Russia também não perde uma oportunidade de enfraquecer um dos blocos económicos liberais mais importantes do planeta.

Mas veja-se que os nossos líderes, quando enfrentados com estas situações difíceis, fingem ser uns sonsos de primeira, brincam à alta política internacional e mesmo aonde tem havido o maior número de vítimas, andam aos beijinhos e abraços com quem detém responsabilidade pela ideologia. Deixem de comprar petróleo e vão ver o quão rápido a conversa muda.

O que é verdade é que pouco a pouco, por causa do “combate ao terrorismo” vemos as nossas liberdades a desaparecerem. Metadados agora podem ser consultados em “casos de terrorismo”, a resposta da Theresa May ao ataque é que deve-se regular a Internet, e qualquer dia, fazemos como aconteceu nos EUA, com a suspensão de habeas corpus, a implantação de um Patriot Act e de uma NSA capaz de entrar em todos os nossos computadores sem qualquer razão.

Se somos liberais, não podemos ficar só pelas questões económica-financeiras, ou resumir os nossos discursos a gritos que reduzem o tema a algo familiar, o nós contra eles, para arrecadar likes pois temos este hábito teimoso e preguiçoso de procurar uma resposta simples para questões complicadas.

Devemos ter foco: o poder económico e político tem vindo a concentrar-se num número cada vez mais reduzido de pessoas. Abandonamos uma aristocracia no passado para substituí-la com uma “elite”. O exercício do poder e do controlo das massas tem séculos de experiência, e até com a democracia temos uma ilusão de participação, que embora possa atenuar a corrupção que o poder traz, não a elimina.

A única coisa que trava a corrupção e a usurpação do poder pelos poucos às custas dos muitos é a nossa constante e atente vigilância. E hoje em dia temos cada vez mais ferramentas que permitem isso mesmo: a ascendência da Internet, uma geração nascida e criada em liberdade, que conhecem fronteiras e línguas para além das suas, tecnologia que fariam os nossos antepassados há 100 anos achar que era magia. Temos o know-how e a capacidade técnica de controlar, de fiscalizar e de exigir mais de quem nos governa, de quem é pago para nos proteger, de reduzir este cancro mortal que é uma elite corrupta e uma política inerte política que por cá nos reina. Mas isso requer uma reviravolta cultural para não “confiar nos nossos representantes” e andar em cima deles como o patrão que somos. Não admitiria-mos um funcionário a dormir no trabalho, então porque é que admitimos que o façam connosco, e ainda a desperdiçar o dinheiro que contribuímos que nos sai da pele?

Não sei como, mas a verdade é esta, a participação do eleitorado em TODAS as áreas é a única coisa que poderá travar este flagelo pois é nestas alturas de medo e de terror que o exercício anti-democrático floresce. Esta na história. Foi feito nos anos 30, foi feitos em inúmeras circunstancias porque a dita elite não tolera não estar no poder.

A nossa liberdade não é garantida, e não é algo que desapareça assim de um dia para o outro. Pouco a pouco eles vão tentar retirar-nos aquilo que lutamos para obter durante séculos. E sabem porque? Porque a era do político está a acabar, a era partidária está a falecer. O fim chegou para este espectro político-partidário porque já chegamos à conclusão que a grande maioria deles anda a gozar com a nossa cara, e pior, andam todos num constante conluio contra o contribuinte, seja através de contratos com uma Octopharma, sejam rendas de EDP, sejam vistos gold, sejam negócios ruinosos de património público, seja a gestão vergonhosa do nosso capital humano, seja o que for. Recuso-me a acreditar que são todos uns incompetentes desgraçados e que este saque milenar não é algo propositado. É uma questão de perceber a história, e de não ficar preso aos ciclos mediáticos, acordar e reagir, escrever e telefonar e exigir que actuem. O principal interesse do governante devemos ser nós, ao contrário do que muitos deles acham que é o EU. Por isso, a função de político de carreira deve deixar de existir, porque confesso que hoje em dia sou capaz de confiar na Siri para tratar dos meus impostos mais do que o Fisco.

Há uma guerra sim senhor, mas os inimigos não é só o Daesh, ou os seus financiadores bilionários Wahabistas da Arábia Saudita, ou os conservadores evangélicos dos EUA que querem sonham com uma Eretz Yisrael para que o Messias possa finalmente voltar à terra.

Como o Gaspar disse e bem, a religião deve servir para unir, especificamente unir contra o mal. E o facto é que quem tem maior responsabilidade em proteger-nos do mal, não o está a fazer e creio que, honestamente, não o quer fazer.

Não nos protegem do terrorismo, pois fazem negócios bilionários com quem os financia, não nos protegem da corrupção pois são os principais interessados na sua continuidade, não nos protegem de nós mesmos, porque a eles não lhes interessa NADA que estejamos unidos.

A união é a força, e a última coisa que querem é uma humanidade unida e com objectivos concretos: a paz, a liberdade e prosperidade. Uma humanidade unida, em paz, prospera e livre, é ingovernável, logo, eles deixariam de ser desnecessários.

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“Para saber quem te governa, simplesmente procura quem não podes criticar.” – Voltaire

O Escabeche Comunista

Vivemos num momento político em que a aliança tricolor entre PS/BE/CDU-PEV nos tenta convencer todos os dias, através de uma máquina de comunicação muito bem oleada, que eles sim são a salvação, que eles sim são a mudança e o fim da austeridade. Os coitados do PSD, historicamente, sempre foram asnos da comunicação, não sabendo esmiuçar as boas notícias até à última gota, não sabendo aproveitar todo o valor político que os bons resultados económicos que foram tendo ao longo do seu mandato. Mais, não souberam fazer oposição utilizando estes factos, como vieram a lembrar recentemente. Só agora é que se lembraram que de facto fizeram reformas que levou à liberalização do mercado das rendas, que facilitaram uma série de coisas que ajudou, e muito ao boom turístico que estamos a presenciar.

Não falaram e não insistiram desde o primeiro dia, que o Costa e Companhia Lda. iriam viver em estado de graça durante muito tempo graças ao executivo anterior, que viveriam sempre na sombra dos resultados macroeconómicos do prévio executivo (porque ao contrario do que alguns politico-comentaristas dizem, efeitos na economia devido a reformas não acontecem de hoje para amanhã) e que graças aos Portugueses, a nós os Contribuintes, e graças a grau de pragmatismo que há muito tempo não se via, conseguimos passar de 11% a 3% de défice em 4 anos, e conseguimos colocar Portugal no rumo certo para a recuperação. Agora, CLARO que foi longe de perfeito. Quando o PSD governa, surgem alas conservadoras que mexem em coisas que não deviam, ou pura e simplesmente ignoram outras áreas, ex. Simplex e modernização do estado, e isto não é ideal, tal como não é ideal o clientelismo e a pouca-vergonha que é a governação do PS que parece estar afincadamente focada só nos trabalhadores públicos. Enfim, as coisas vão transitando entre um partido e outro, e o contribuinte reza para que o bicho do fisco não nos prejudique mais do que já o fez.

Só que existem por aí uns tantos políticos, que se acham santos, que se dizem ser protectores do povo e salvadores do trabalhador, que recusam-se a condenar regimes como a do Nicolas Maduro ou do Kim Jong-Un, porque têm laços históricos com uma ideologia política antiga e vencida, logo não se pode criticar. Os nossos queridos Comunistas que tanto gostam de bater na tecla contra o “grande capital” e a burguesia e isto e aquilo, os vingadores que prometem acabar com as desigualdades tanto no público como no privado.

Ora surge hoje uma reportagem do Observador, cujo título é o seguinte: Câmara comunista oferece relógios de 880 euros a trabalhadores. Vou só deixar isso assentar um pouco. Preparados para mais indignação com este belo executivo comunista de Almada? Foram 150,000.00€ em relógios de luxo desde 2011 por ajuste directo a uma ourivesaria do município, sendo que só em maio (mais claro, em ano de campanha) foram €35mil euros em 43 relógios de luxo para homens e mulheres funcionários da câmara. Mais, em Dezembro foram quase €10mil em 65 smartphones para a festa de natal da câmara para os filhos dos funcionários, porque como a tradição era dar uma bicicleta, mas como a maioria já tinha, optaram por smartphones. Em 2015 foram tablets. E em 2017? Frigoríficos, Bimbis, carros? Quiçá uma moradia? Mais, parece que Almada é o único município que tem um festival de música que dá prejuízo, e dá prejuízo de mais de 744mil euros…

Para ser ainda mais claro: o teu dinheiro que sai do teu bolso todos os dias, que contribui para que possamos ter quiçá um estado que no mínimo dos mínimos nos preste um serviço digno no que calha à organização municipal, à saúde, à educação, à manutenção das infraestruturas, etc., está a ir directamente para alimentar um sonho molhado de qualquer comunista: os outros que paguem, para que eu ganhe. €150,000.00 em relógios para os funcionários comunistas e regalias para os filhos dos comunistas todos os anos que custam mais de €10,000.00 ao contribuinte, mais um festival anual na Caparica que custa mais de €700,000.00 em prejuízos. Garantidamente não há de ser a única Câmara a fazer este tipo de porcaria, mas enquanto os outros partidos tentam desvalorizar este tipo de corrupção (porque sim, este tipo de actividade é corrupto), o Partido Comunista anda por aí constantemente a meter-nos pela garganta abaixo que tem que se defender o povo do grande capital e bla bla bla. Se já valia pouco, agora vale ainda menos. Resignem-se ao CGTP, façam um rebranding, e deixem o comunismo na lixeira da história das más ideias cuja execução conseguiu ser sempre ainda pior do que se idealizava.

O facto é que o Jerónimo e o seu comité pertencem à mesma quadrilha que nos anda a assaltar com todas as ferramentas e recursos que têm ao dispor. O objectivo deles torna-se cada vez mais claro: querem como os demais serem senhores disto tudo e viver por conta de todos os contribuintes, para sempre. Querem sentar-se na mesma mesa que o resto do poder, querem poder fazer estas falcatruas sem olharmos. Mas é lixado, existe a informação e quem saiba ler e escrever…

Por isso, se por acaso forem ao Festival Sol da Caparica, e se por acaso se cruzarem com o camarada Joaquim Judas (nome perfeito) ou com um dos outros camaradas com uma bela adição à sua indumentária de luxo, peçam um momento do tempo deles para que eles vos possam, em pessoa, agradecer: afinal, tanto o festival como os relógios foram pagos por vocês.

Portugal com Vida Suspensa à Beira de uma Paragem Cardíaca

Na minha última publicação falei de uma das graves falhas na comunicação social, o fetiche pelo ciclo de indignação-esquecimento. Hoje achei que deveria promover um tipo de jornalismo que não é suficientemente valorizado dado que não é mediático, é mais cerebral, requer trabalho. Existem investigações de grande qualidade feitas por programas como o Sexta às 9 da RTP, os vários trabalhos das Vidas Suspensas ou o Acha Que Conhece o Seu País? da SIC ou como outro exemplo, o último Repórter TVI sobre as Contaminações dos terrenos do Parque das Nações. Entre estas, por vezes também somos expostos a investigações titânicas por parte da SIC que demonstram pequenos exemplos das redes de corrupção e o alcance da podridão que corrói a sociedade portuguesa, como na queda do BES, a operação Marquês, o BPN, BANIF, etc etc.

Este tipo de reportagens não são inconsequentes, alias, necessitamos de um ressurgimento deste tipo de trabalho. Acho que merecemos, acho que precisamos e com muita, mas muita urgência.

Chegamos a uma era em que a transparência é cada vez mais nítida e a informação cada vez menos concentrada nas mãos da auto-intitulada elite. Essa transparência e esse acesso à informação são os principais inimigos de quem se enriquece às nossas custas e de quem faz de nós uns verdadeiros otários dia após dia.

Todas as sextas-feiras fico de boca aberta com a falta de rigor, profissionalismo e qualquer ausência de responsabilização por parte das entidades que sistematicamente desfazem famílias e lançam o caos perante os portugueses. O Sexta às 9 tem feito um trabalho exímio em reportar algumas grandes falhas do nosso sistema, e em alguns casos levaram a consequências e a pequenas reformas. Merecem o reconhecimento disto, mas infelizmente, ainda não é o suficiente.

Ao ver qualquer daquelas reportagens, seja na RTP, SIC ou TVI, chegamos à conclusão que não podemos confiar em quem está em posições de poder. Vivemos num país com mais de 600 mil funcionários públicos, uns com mais poder que outros, mas todos invariavelmente com o poder suficiente para afectar profundamente as vidas de cada um dos milhões de portugueses que vivem dentro e fora de Portugal. Se viver à margem da responsabilização e da supervisão não fosse o suficiente, ainda temos o resto da sociedade para enfrentar, o que me dá a distinta ideia que vivemos de facto num país muito perigoso. Um poder governativo sem supervisão e uma sociedade à viver à margem da lei não são bons ingredientes para garantir “a paz social”.

Podemos não ser alvo das ondas terroristas e xenófobas que esbarram pelo mundo fora, muito devido à nossa ausência de aventuras militares em países que não nos dizem nada e também devido à nossa história e cultura que tendencialmente é aberta a novas ideias e novos horizontes.

Podemos não correr estes riscos mais iminentes e podemos não sofrer destas ameaças à nossa democracia e liberdade, mas corremos perigo, disso garanto-vos.

Neste momento somos governados num ambiente em que nos é encafuado goela abaixo, que nem uns belos patos para fazer foie grás, que nada de mal se passa, tudo é fantástico, e tudo corre bem.

Vivemos bem para além do país das maravilhas e completamente alheios à realidade que suspende as vidas de milhares de portugueses todos os dias. Ignora-se o que é de facto sério para dar foco sem fim à política macroeconómica do país. Baixamos uma percentagem no défice, aumentamos outra no crescimento trimestral, mexe uma vírgula aqui, outra ali.

Passamos noticiários inteiros e programas de “debate” político a “comentar” quem é que tem o mérito da boa nova, porque assim quiçá o plebeu poderá aumentar, um poucochinho, a confiança neste ou naquele grupo de palhaços a orquestrar o próximo ato do circo que são as sessões parlamentares.

Distraem-nos com debates sem fim, sobre a grande obra e a grande luta que combatem, para ajudar os pobres, para combater a precariedade, para lutar contra o grande capital, para ir buscar o dinheiro a quem acumula e a quem foge à tributação. Gritam e batem o pé, e embora não façam assim grande coisa que se veja, ainda se congratulam com tudo o que é de bom. Seja o tetracampeonato do Benfica, seja o centenário de Fátima, seja o Salvador e a conquista daquela “coisa” como o próprio Sobral chamou o troféu da Eurovisão, tudo mas TUDO o que seja de positivo é de obra e mérito única e exclusivamente deles. E aí de vocês se não agradecerem todos os dias ao pai, ao filho, ao espírito santo e à sagrada geringonça por terem comida no prato. Ou neste caso, a engorda que nos eventualmente levará a um fígado bem gordo, pronto para a sua colheita.

Ontem nas Vidas Suspensas da SIC apresentaram uma história, que como todas as outras, me deixou a perguntar, mas que raio é que se passa aqui?

Resumidamente, contaram a história de um senhor que trabalhou a vida toda para construir a sua vida (como muitos), que no próprio dia em que a empresa informou os seus trabalhadores que teriam que trabalhar todos até uma hora mais tarde do que o programado, ele teve o desplante de informar que não poderia fazê-lo pois já tinha compromissos marcados que não podia falhar.

A empresa decidiu retaliar, retirando-lhe horas de trabalho extra, decidindo não pagar o trabalho de feriados e dos tempos extraordinários, e este senhor, mais uma vez, teve a audácia de se queixar ao tribunal do trabalho. Ora a empresa quando descobre, abre processo interno contra o senhor, inventa umas justificações fictícias para o por na rua, despedindo o mesmo, dizem eles, por justa causa.

O senhor no desemprego recorre à justiça que entretanto não lhe atribui advogado. Senhor perde o carro, a casa, a mulher e a família. Pede a múltiplos advogados para o representar, e teve a má sorte em quem aceitou representar, que o faz mal e porcamente. São indicadas 4 testemunhas para falar em defesa dele, só foram convocados 2 no dia antes do julgamento.

As testemunhas da empresa mentem em tribunal, e os dois colegas que tiveram o desplante de falar em defesa do seu colega eventualmente também saíram da empresa por “incompatibilidades”. O senhor tenta interpor recursos mas o advogado diz que não tem tempo pois esbardalhou-se pelas escadas abaixo, que se encontra em recuperação e não pode tratar do assunto. Ora o senhor estando no desemprego vê esse mesmo advogado fino que nem um figo nesse mesmo dia. Enfim. Está neste momento de vida suspensa pois a nossa sempre célere justiça trata estes casos, como tantos outros com a urgência que merece: ou seja, para eles, nenhuma.

E ficamos ali, a pensar que de facto, é mesmo assim. Que vivemos num país em que se te atreves a abrir a boca, a contestar o que for, a reclamar direitos ou no mínimo dos mínimos, dizer que não, então é bom que tenhas uma artilharia de cunhas, connects e amigos que possam ajudar a enfrentar as consequências que vierem.

Uma pessoa diz à sua gestão, que não é competente o suficiente para anunciar as suas escalas de trabalho com antecedência, que não pode trabalhar essa hora extra, e tungas, três funcionários vão para a rua, efectivamente dando cabo de três famílias. É nisto que vivemos, não podemos levantar a cabeça porque não temos quem olhe por nós. 600 mil funcionários públicos que deveriam ter sentido de estado, que deveriam saber que estão lá para nos servir, para nos proteger, para ter em mentes os nossos melhores interesses, querem lá saber dos restantes milhões de portugueses que pagam o ordenado deles. Querem é saber dos seus salários, das suas férias, das suas reformas, dos seus aumentos, do seu crescimento, das suas horas de trabalho, dos seus direitos, etc. E temos a governar-nos quatro partidos que são peritos em proteger esse seu público alvo de 600 mil eleitores, com a sua máquina sindical pelo meio, e é por isso que eles têm direito a tolerância de pontes que não existem e o resto de nós não.

O perigo que existe aqui, é que enquanto uns governam a olhar para o seu umbigo, o resto do país anda a ser categoricamente e consistentemente fodido (tipicamente não uso palavrões mas não havia outra palavra que melhor descrevesse o que sinto). Mas como pintam o ar de cor de rosa, parece que afinal as coisas não andam assim tão mal.

As coisas andam mal, e olhem que eu sou um optimista! As coisas andam mal: perguntem só aos moradores do parque das nações que andam a respirar benzeno, ou às famílias vítimas de técnicas da segurança social que pertencem a esquemas para preencher os orfanatos com crianças retiradas ilegitimamente aos pais, ou aos milhões de portugueses que sofrem todos os dias perante a grossa incompetência de funcionários públicos que querem é ir picar o ponto para ir para casa antes do resto dos plebeu poder sair do trabalho, horas depois, e sem direito a ordenado extra.

O perigo é claro e gritante, e com cada trabalho de jornalismo destes que desmonta um esquema e demonstra a bandalhada que por cá governa e gere o estado, o mais nos aproximamos daquele momento em que um Mohamed Bouazizi (senhor que se auto-imolou e foi estopim dos protestos dos protestos na Tunísia) destas bandas se suicida às portas da Assembleia da República devido à ausência de um estado que sirva para governar para além dos seus clientes imediatos, ou seja, eles. Tenham cuidado, comecem a reformar, e rapidamente pois a coisa não irá correr bem. Reformem e ponham-se a mexer que não estamos assim muito longe daquele momento em que perdemos a cabeça. O povo português é pacato e consegue aguentar muito, mas aguentar muito mesmo. Mas após 40 anos de andarmos a ser enganados e esmiuçados de milhares e milhares de milhões de euros para financiar todo um quadro de bandidos de primeira, já o Thomas Jefferson dizia, que para manter a democracia, eram necessárias revoluções todas as gerações. A próxima revolução não necessitará de tanques e soldados na rua, mas garanto que muita gente irá para a cadeia, porque não admito que os Salgados da vida passem a vida em bem, mas se eu roubar um pão para alimentar a minha família vou preso e custar ainda mais aos contribuintes.

Eu recuso-me a pagar outro resgate. Isso garanto. E vocês?

Palermices, Palermadas e Palermos: a Comunicação Social Portuguêsa no Poço

Mais uma semana, mais uma polémica, em que o Correio da Manhã publica um vídeo durante a Queima das Fitas no Porto, de cariz sexual, num autocarro, para principalmente arrecadar likes e visualizações. Se foi, ou não foi assédio não é aqui o foco, deixou outros indignados esse papel. Mas sim o que se seguiu que foi uma pequena tempestade de revolta, por um lado a criticar os protagonistas do vídeo, por outro o tipo de jornalismo (por vezes ausência) que é praticado no CM.

Creio que não é necessário falar muito sobre este tipo de comportamento, sendo repugnante para mim qualquer tipo de atitude que procura humilhar, objectivar, assediar, violar, maltratar, desprezar qualquer pessoa, seja homem, seja mulher, seja o que for. Isso para mim é a antítese de ser homem. Um homem não se comporta desta forma. Um homem que é másculo, protege, defende, não é cobarde, não é palhaço, não é algo que não merece pertencer a uma sociedade civilizada. Mas isso sou eu e a minha opinião. Avante.

Tenho o mau hábito de estar sempre a procurar mais da humanidade, de querer uma sociedade cada vez mais civilizada, que procura ser mais empática, mais atenciosa, e sobretudo, menos violenta, pura e simplesmente porque temos a capacidade de o ser. Mas todos os dias a levar com este banho mediático perpétuo de “noticias” criam uma certa angustia, pois já sabemos que há ciclos, e não me esqueço deles, e ao ler (sem precisar de ver) este vídeo do CM, leva-me a pensar em outros temas que estão interligados, mas não abordados. O facto é que existe uma cultura que é fomentada à volta deste “vida” académica, e embora não haja jornalismo que contextualize o vídeo em causa, isto aconteceu no meio de uma queima.

Há coisas que não consigo perceber, que não consigo encaixar na minha maneira de ser e de ver as coisas, por isso pergunto, será que sou o único que está farto de ler sobre os excessos das praxes, das queimas e de todo este ritual académico? A sociedade parece rendida a este ciclo de notícias, ficamos indignados sempre que a onda passa, mas a boiar na maionese da indiferença passados uns dias. Lembram-se do Meco? Pois..

Pergunto isto porque estes “escândalos” parecem já só servir para colocar nas capas dos jornais ou para arrecadar likes nas redes sociais. Consequências? Zero. Reformas? Para quê?

Mas todos os anos passamos por isto (da recepção ao caloiro à queima das fitas) e todos os anos discutimos as praxes (das violentas às menos más) e a queima (excessos de álcool, etc). Mas é só isso. Como tanta outra coisa, falamos alto, abanamos a cabeça; uns resignam-se, outros pensam que é “coisa de jovem”, outros tantos nem se querem lembrar, e uns outros tantos saboreiam as memórias dos seus “belos tempos”.

Sinto-me gozado com a falta de seriedade com que este tema é tratado e sinto que nos estão a tratar como se fossemos parvos sempre que nos apresentam um destes escândalos como se fosse a primeira vez. Não consigo perceber o medo de actuar perante a bendita praxe, de regular os seus excessos, de diminuir a sua inumanidade, porque sejam as instituições, sejam as autoridades competentes, ninguém quer tocar nesta sacrossanta “tradição académica”.

Em tempos, a praxe resumia-se a duas semanas por ano: no início a recepção aos caloiros, no fim a queima das fitas. Agora, todos os dias bem cedinho, quem passa pelos centros das cidades, passa por uma manada de trajado(a)s, a sistematicamente submeter uns coitados a uma série absurda e sem fim de práticas humilhantes e psicologicamente desgastantes. A seguir devem ir todos finos para as aulas, motivados e com o espírito pronto e preparado para aprender. É isso…

Há quem diga que não se pode tocar neste tema, que vangloria a praxe como o ex libris da experiência académica. Como já calcularam, não sou um desses.

Quando vemos nos centros das nossas cidades estas congregações de meninos e meninas vestidos a rigor, a maltratar, a humilhar, a subjugar, e a exercer a sua “autoridade” de uma forma cruel e sem mérito, que representam uma desresponsabilização individual, institucional, dos professores (pagos por nós) com aulas vazias pois não se marca falta a quem está na praxe, dos departamentos, dos pais, enfim, no todo uma tal podridão de espírito que já chegou ao ponto de um tema normal.
Expliquem-me porque é que devo tratar variantes graus de tortura psicológica e física como normalidade? Dá assim tanto jeito às faculdades ter quem desgasta a resistência dos novos alunos para que possam melhor papar o que lhes é servido? Dá assim tanto jeito à sociedade ter uma geração de gente que entende que o mundo funciona num ciclo eterno que vai de praxado a praxante? Que a autoridade não se questiona e que devemos engolir a caca que nos é servida com um sorriso na cara?

Expliquem qual a necessidade de submeter crianças, numa nova fase da vida, a todas as madrugadas, fins do dia, e durante o tempo livre, tempo que deveria ser utilizado para explorar a vida ou no mínimo os livros, andar a levar com uns marmanjos cuja habilidade académica é questionável (alguns “veteranos” bem para além da idade de estar na faculdade) e que dedicam mais tempo à praxe do que aos estudos?

Começamos muito mal quando a primeira desculpa é dizer que isto “é coisa de jovem”. Isto é a prototípica resposta para quem não quer assumir a responsabilidade de educar as próximas gerações. Lançamos os “jovens” para o mundo e olha, a escola, a sociedade, o país que os socialize. Por outro lado, e quiçá mais perigoso, demonstra uma ideia de quem acha que existe uma altura na vida em que podemos comportar-nos que nem umas bestas, como vimos com os “finalistas de curso” em Espanha, e estes não são alvo de grande repúdio, alias, os papás e as mamas têm que vir à televisão fazer figura de urso a desvalorizar o que fizeram, que partir azulejos e atirar televisões para a banheira e mandar colchões janela fora é normal. Mas normal aonde? Na minha casa com certeza que não, e acredito que para muitos também não. Alias, fui educado a ter muito respeito pelo que se tem, pelo que se consegue ter, que tudo o que nós temos sai da nossa pele, do nosso trabalho, e que como tal, devemos tratar a propriedade dos outros com a mesma consideração. Só porque “sou jovem” não tenho jamais a autoridade para fazer o que me apetece sem ter receio das consequências. Existem, e são graves, pois estes jovens depois tornam-se adultos, e esses adultos depois têm filhos a quem depois contam histórias do é brutal que é andar a apalpar pessoas inconscientes e pegar fogo a camas e esvaziar extintores nos corredores. É contra isto que eu me indigno, é que quem desculpa com esta facilidade, muito provavelmente, já fez muita bosta na sua vida e continua a proteger que anda a desfazer aquilo que muitos andam a construir com as suas mãos..

Quem percebe que não estou a generalizar, sabe que estou a falar dos casos mesmo podres, e tenho a absoluta noção que há gente que leva o espírito académico pelo lado bom. A questão é que são esses mesmos que têm o dever e o direito moral de policiar os selvagens, de não permitir os abusos e as javardices, pois são os que levam a coisa a bem, e não andam a abusar do seu estatuto e tentam mesmo ajudar na integração de putos apavorados por estar longe de casa e numa cidade estranha. A bem sim, a mal jamais.

A mim também me irritava profundamente quando era “jovem” e era associado aos selvagens que me rodeavam, e embora nunca fui nenhum santo, também nunca me passou pela cabeça cometer barbaridades só porque podia. E é necessário fazer este raciocínio, porque não é uma questão de ser politicamente correto, é uma questão de consciência e de justiça.

A partir de uma certa idade, o “jovem” já pode trabalhar, votar, comprar armas, declarar impostos, entrar nas forças armadas, conduzir um carro, viajar sem autorização, beber, fumar, ter relações sexuais, e todo um mundo de actividades que são bem mais resumidas quando estamos sob a alçada dos nossos pais/guardiões. Ser adulto não implica que uma pessoa não se possa divertir, mas o processo de crescer antes de ser lançado no mundo é entender até aonde é que se pode levar a nossa liberdade sem agredir a liberdade dos outros. Temos a liberdade de andar por aí a dar bofetadas às pessoas? Sim. É legal? Não. Tenho a liberdade de conduzir o carro com os pés? Sim. É estúpido?Muito. Legal? Provavelmente não, a não ser que se tenha uma boa razão.

Mas voltando à essência, fico fulo com este ritual de socialização, e não é de nada curioso saber que as maiores bestas que já conheci na minha vida, tinham muita “escolaridade”, ditos Senhores Doutores e Senhoras Doutoras que andam por aí a tratar tudo o que é pessoa como a reles plebe que os deve servir. E não é de surpreender que muitos dos nossos governantes e a dita elite, pensam assim. Há uma toda burguesia endividada/falida que ainda acha que vivemos nos tempos da aristocracia, e que eles são superiores ao resto da humanidade, só porque têm um nome de família X ou um título Y.

Enfim. Aonde estávamos?

Quando os pais entregam os filhos às faculdades com a expectativa que aprendam, no mínimo, algumas competências e skills que os ajude a vingar no mercado de trabalho, não estão a falar de choques hepáticos e uma capacidade para aturar filhos da p&%# fora do comum. Esta última até pode ajudar, mas para isso a vida já é escola suficiente.

O que acaba por ser transmitido aos “jovens” é um curso avançado sobre as piores características da sociedade, anos em que se experiência um microclima concentrado de humilhação, de subjugação dos mais novos, de criar um ambiente em que a cunha vale tudo e o mérito vale nada, em que a tradição está acima da ética e da moral, em que a desresponsabilização pessoal e a indiferença institucional são essenciais, e toda uma série de características que vemos depois espelhado no resto da sociedade, da política, à justiça, à autoridade, ao mercado laboral, enfim, ao país.

Espalhadas pelo meio temos umas pepitas de chocolate para adocicar a bosta, para parecer que até gostamos, que até há momentos bons, e que de vez em quando sabe bem, que são criados laços que duram para a vida. Mas isto faz parte de uma narrativa fantasiada à volta desta coisa, que podemos encontrar em qualquer ceita, seja a ceita académica, partidária, ou qualquer outra ceita que dita qual a “tradição” que devemos seguir para poder pertencer.

Quem tem a dignidade, consciência e auto-estima o suficiente para vencer o medo que sentimos perante o desconhecido, é alvo do exílio, e quem recusar levar com ovos e farinha na cara, de ser abençoado com nomes ordinários ou de ter que levar a cabo simulações sexuais físicas com colegas (exemplos brandos do dia-a-dia da praxe), tudo em nome da santa tradição académica, não poderá participar na tradição, não poderá trajar-se, não poderá pertencer ao grupo.

Claro que existem alternativas, há carradas de gente que teve experiências académicas que foram pacíficas, em que laços de amizade foram criados através da cumplicidade, através de dialogo e discussão, através do relacionamento normal que dois seres humanos podem ter na procura de um ponto comum. As alternativas requerem um bocadinho de esforço, para não nos submetermos às nossas vontades mais básicas, animalescas, cruéis e violentas. Se não, ficamos por aqui, a boiar na maionese da indignação, de ano em ano, de escândalo em escândalo.

As faculdades servem para formar não só a mente mas a alma, servem para preparar para uma vida de trabalho, de sociedade, de cidadania, e serve como mais um passo opcional, para se poder especializar e criar um outro tipo de trabalhador. Digo opcional pois há cada vez mais maneiras de procurar o conhecimento sem ter que ir à caça do diploma.

Mas todos nós contribuintes, quem batalha diariamente para a economia deste país, temos uma responsabilidade investida nisto.

Vivemos em sociedade e colaborámos para que possa existir um sistema de ensino financiado pelo nosso suor, da creche à universidade, logo temos responsabilidade perante estes jovens que andam horas sem fim a levar com tudo e mais alguma coisa e a serem chamados e tratados de maneiras desprezáveis. Isto para mim é inaceitável, tal como é inaceitável existir toda uma classe de senhores professores que são intocáveis, que não se podem avaliar, e que continuam a ensinar como ensinavam há décadas, achando que um 18, 19, 20 são notas que simplesmente não se dão, mesmo que um estudante esteja 100% correto. Enfim, tema para outro dia.

Um estudante não se está a preparar para uma vida laboral, um estudante já está no início da sua vida laboral. E que tal começar a cumprir os seus estudos com o profissionalismo que é esperado de qualquer outro emprego? Não estão de férias, a faculdade não é um festival de música, e as responsabilidades não são só com eles próprios ou com os pais: vocês os estudantes têm a responsabilidade para com todas as pessoas que passam por vocês, todos os dias, e não imaginam o que sentimos quando vos vemos a fazer figuras de palhaço, com o nosso dinheiro.

Têm noção do quão desrespeitoso é, para as centenas de milhares de pessoas que trabalham até cair a pele, que vocês andem a desfilar pelas ruas da cidade a fazer tudo o que fazem, quando em bom rigor deviam estar a tentar fazer valer o NOSSO investimento em vocês? Mas têm ideia do peso do ensino superior para o estado? E agora não querem pagar propinas?

Da maneira como as coisas estão, das reformas que são necessárias no ensino superior na sua íntegra, com o potencial dos nossos estudantes a ser desperdiçado em baboseiras e idiotices, e que só por cima do meu cadáver. Eu não admito, tal como nenhum pai devia admitir, e mais, tal como nenhum professor devia admitir (diga-se de passagem que estes senhores são muito responsáveis pelo actual cultura).

Não percebem que já não andam na escola, estão a ser FINANCIADOS pelos trabalhadores deste país, para se tornarem em gente e devolver algo a Portugal pelo facto de terem sido alvo de um investimento ao longo de décadas para poderem trabalhar, como o resto do país, para sermos uma economia melhor. Se por acaso quando acabarem, não existir um mercado para vos inserir, a culpa é do planeamento e das políticas económicas e das geringonças que as conceberem.

Mas é insultuoso para nós cidadãos e para os estudantes que têm a plena noção do que está em jogo, gente séria que estuda até sangrar dos olhos, até queimar as pálpebras, até criar múltiplas dioptrias, que conseguem resultados e médias que são fruto do seu trabalho, e não das cábulas que orquestraram horas antes da prova.

Cada vez mais conheço gente séria, digna, serena, humana e simplesmente genial, que nunca pôs um pé numa faculdade, que com toda a humildade consegue aceitar que uma vida trata-se da aprendizagem que recebemos todos os dias e de ter a noção que todos temos responsabilidades para com os outros, e que todas as acções trazem consequências. Grande parte da nossa economia depende de pessoas que não se acham melhores ou superiores a ninguém só porque passaram uns anos trajados e tem um diploma na parede. Mas a economia, o mundo necessita de variedade, e precisa de facto de quem estuda de facto e procura novos horizontes do conhecimento, tanto como precisa de quem ponha esse conhecimento em prática.

Não tenho nada contra o que as pessoas fazem com o SEU tempo e o SEU dinheiro, agora quando se trata do MEU dinheiro, dos NOSSOS impostos, não admito, e sou um defensor incansável do contribuinte, porque parto logo do principio que nos estão a gerir mal o nosso dinheiro. Tem que haver regras, e se não as querem, procurem alternativas que não mexa com o nosso investimento.

Se é Público e financiado pelo público, então tem que ser alvo da opinião pública e do escrutínio público.

Sinto-me gozado, e sinto isto todos os dias de manhã quando vou trabalhar, tal como milhões de pessoas, e vejo centenas de jovens a praxarem, a serem praxados, e ainda tem a lata de mandar bocas a quem vai trabalhar, quando deviam era ter um poucochinho de respeito perante todos nós que sacrificamos para que possam ter aquilo que muitos nunca tiveram.

Mas no fim disto tudo, seja a tragédia do Meco, seja um vídeo publicado pelo CM, seja o escândalo do dia ou a obsessão da semana, tratamos tudo como se fosse uma brincadeirinha. Andamos por aqui a brincar aos políticos e aos governantes, e antes de nos tornar-mos num país a sério, teremos muito que caminhar. Não nos lixem, pois todos os dias vemos coisas que nos revolta, começando pelo bando de abutres que pois no Palácio de São Bento. E que fazemos nós? Chegamos a casa, jantamos, arrumamos a cozinha, caímos no sofá, entramos no coma das redes sociais e depois vamos dormir. Pura e simplesmente não temos a energia ou a vontade para levantar o dedo. Mas temos sempre a opção de acordar no dia a seguir e pensar que se calhar hoje consigo fazer as coisas um bocadinho melhor, um bocadinho mais humanamente. Ou talvez não. É uma questão de optimismo.