A Idade da hipocrisia, a mundivisão limitada e o ego exacerbado

Ser livre não é algo fácil e reparo que infelizmente as pessoas desenvolveram uma aptidão para querer tudo fácil e rápido. Não que seja errado querer facilitar e agilizar as coisas. O problema é quando não vemos as consequências de certas “facilitações”. E infelizmente isso é levado para o campo do pensamento social e político.

Vejamos, sempre tive inclinação para o centro político. Mas desde pequeno (porque sim, desde criança que gostava de política) ouvia em discussões em todos os meios, pessoas dizerem que era mal ser do centro, era indefinição, ou se era de esquerda ou se era de direita, e pensava eu, que teria que de facto escolher numa perspectiva dualista, entre o eles e o nós. O nós tinha que deter o monopólio da virtude e do correto, o eles são os errados, pobre doentes mentais que não tem boas ideias. Várias vezes aceitei pensar desta forma, de todas me arrependi. Inspirado num livro que gosto imenso, com o tempo percebi o significado de, “quem não é contra nós, é por nós”. Percebi que mesmo que possamos diferir no conteúdo e nos fins, se a pessoa não está contra a minha existência, meus valores e ideias, é porque está a favor de mim, mesmo que não concorde comigo. Isto não é simples de perceber, principalmente numa Era em que se apela à divisão e ao conflito. Infelizmente, vivo numa Idade hipócrita em que as pessoas não sabem aceitar ouvir críticas, e quem as emite acha que o receptor é obrigado a aceita-las.

Há um tema em que noto isso de forma perfeita, sobre a comunidade LGBT. Quer conservadores, quer fascistas, quer comunistas, sociais democratas, democratas sociais, quer quase toda a gente fica descontente com a minha postura em relação ao tema. Porque a sociedade desenvolveu uma tendência que é, ou eu aceito por inteiro ou eu recuso. Eu aceito a diferença, luto pelo respeito à diferença, mas não sou obrigado a concordar com ela. Não sou contra a mesma. Tal como não diz respeito a ninguém o meu credo e a forma como o pratico (se a pessoa discorda ou concorda), também não me diz respeito ou à ninguém que seja, quem se une civilmente/casa com quem, qual é o credo do político x, qual a origem do empresário y ou o que o sujeito w vai fazer com a sua propriedade. Isto leva ao ponto de haver gente que me chama de preconceituoso, herege ou radical de esquerda disfarçado de direita (só dá vontade de rir).

Normalmente quem me chama de herege ou radical de esquerda disfarçado de direita  é gente que ainda não aceitou bem a laicização e pluralização civil e acha que seu credo ou ideias tem que monopolizar a praça pública. À esses só tenho a dizer que os vossos valores e pensamento ninguém vos impede ou impõe que sigam nos vossos lares e espaços de reunião, nem que os promovam. Eu sigo a minha fé por firme convicção e liberdade, tal como o meu pensamento, e como não quero que ninguém me obrigue a acreditar em coisas que considero heréticas e erradas, também não quero que ninguém me obrigue a parar de fazer algo só porque considera errado ou herético. Mas quero poder continuar a me exprimir, tal como respeito as pessoas que exprimem aquilo que acreditam.

Quem me chama de preconceituoso é igual aos mesmos preconceituosos que querem criticar e até se assemelham à Alemanha Nazi ou à URSS. Essas duas forças radicais que controlaram essas unidades políticas, taxavam toda a gente de doente que de alguma forma era contrária às suas ideias e convicções. E eis que os “promotores” da compreensão, hoje em dia, fazem o mesmo, tudo que alguém não vê da mesma forma tratam como doente. Para quem não sabe, quem tem uma fobia é doente, então os tais “promotores” quando chamam alguém de homofóbico, islamofóbico, misógino ou qualquer outro fóbico, está a chamar essa pessoa de doente e a dar o mesmo tratamento que a Alemanha Nazi dava aos gays, judeus, ciganos e tantos outros grupos. Não é porque a pessoa não vê as coisas da mesma forma que você quer dizer está contra aquele grupo. O engraçado é que gente próxima e afastada já me chamou de tal.

Eu não sei o que se passou com a Humanidade, quando temos a oportunidade de forma fácil e ágil de aceder à informação, de compreender o outro e complexificarmos o nosso pensamento e consolidar para algo melhor, nos escondemos em grupos e grupinhos, consolidamos uma visão limitada do mundo em que só vemos a nossa opinião e não sabemos respeitar a opinião do outro ou sequer compreender o outro. Tudo é motivo para circo e ofensa. O período que poderíamos ser mais abertos às novas ideias, tem se mostrado o período em que as pessoas menos estão comprometidas com a verdade, honestidade intelectual e progresso do pensamento social.

Que sociedade é esta em que há pessoas que tem orgulho de dizer que só lidam com gente que pensa igual a elas? Como é que o sinónimo de “quem não pensa igual a mim”, passou a ser inimigo? Cada vez mais reparo que sou de uma minoria que gosta de lidar com gente de todo o tipo. Não me importa a etnia, o credo, o pensamento, orientação sexual, ou qualquer gosto que a pessoa tenha que para mim possa ser um desgosto. Eu gosto imenso de um amigo meu, que na minha opinião é exageradamente conservador, não é a favor de refugiados e tem dúvidas em relação até que ponto tem que ser respeitada a diferença cultural. Tenho outro que é completamente contrário ao aborto. Também tenho amigos gays. Tenho amigos que são comunistas e sabem o quanto discordo desta ideologia. Tenho amigos católicos e muçulmanos, sendo eu protestante. Alguém me diga, acaso uma amizade ou relacionamento social tem que ser feito só entre gente que concorda em tudo? Alguém que não sabe lidar com a diferença de pensamento e não sabe ouvir críticas (que é diferente de aceitar as mesmas) não tem qualquer comprometimento com a pluralidade, progresso e muito menos com a liberdade.

É estranho ver que entre a juventude se aceita a exacerbação do ego e que se limite a forma como vemos o mundo, como se o mesmo fosse limitado. Caminhamos pela hipocrisia argumentativa de gente que acha que sabe aceitar a diferença e não o sabe. Até quando teremos falta de visão?  Acabarei com outra citação do mesmo livro que tanto gosto, “não havendo visão, o povo perece”. Mas que falta de visão e o quão em risco está o nosso futuro!

Matheus Costa

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O país em luto que (parece) voltou à Idade Média

Serei breve. A nação estará três dias em luto e em vários locais é possível ver a meia haste. Estou revoltado, conheço gente cujos familiares faleceram. Toda a situação é triste. No meio disto há uma coisa que demonstrou o forte espírito da nação e a fraca qualidade de nossos políticos.

Rapidamente, as mais variadas religiões, associações, ONG e pessoas singulares começaram a fazer doações para as vítimas. Tudo em poucas horas, o espírito de solidariedade nacional se mostrou forte e a dor foi tomada por todos. Somos de facto uma nação, não houve discussões, estamos unidos. Inclusive o espírito de solidariedade europeu foi demonstrado com o apoio de nossos parceiros.

Mas na catástrofe, se o ser humano é capaz de mostrar o seu lado mais belo e divino, também consegue mostrar o seu pior. Isso se viu nas nossas instituições políticas a dizer que era imprevisível e a culpa (que nunca é deles) é do trovão ou do raio ou do que seja. Parece que voltamos à Idade Média, a explicação está sempre no que não é explicável. Vejamos, a gestão das matas e florestas em Portugal é maioritariamente estatal. As mesmas são raramente cuidadas com limpezas e a esmagadora maioria não tem um sistema de regas anti-incêndio. Sem falar que o orçamento dos bombeiros tem sido alvo de cortes sucessivos nos últimos anos. A guarda florestal parece que não existe. A culpa será só do trovão? Ou da falta de prevenção? Vivemos num tempo em que era possível a tragédia ser evitada. Mas quem nos governa só trabalha depois que a tragédia ocorre. Que falta de qualidade de nossas instituições, demonstrado num momento tão sensível!

Acima de tudo, desejo que D-us console os familiares das vítimas que morreram e peço que todos continuem os esforços para ajudar quem perdeu tudo!

Matheus Costa

Liberdade, libertinagem e difamação

Já repararam que muitas pessoas quando atingem o ponto que não são mais capazes de criticar uma ideia da qual discordam têm que ir pela via da difamação, depreciação e até apelar ao riso falso? Tem algumas que vão mais longe, fazem críticas às ideias alheias que podiam ser feitas às suas próprias. Parece que quanto mais o tempo passa, a honestidade intelectual aumenta o seu risco de extinção.

Isso é facilmente visível em países corporativistas, no qual Portugal é um exemplo brutal. Já repararam como as forças conservadoras e/ou sociais democratas (moderadas como o PS ou radicais como o BE) adoram figurar os liberais como libertinos? Não dá jeito assumirem (em ambos os lados das forças representadas) que em décadas de Democracia foram incapazes de informar aos cidadãos que a liberdade não confere apenas direitos, mas também responsabilidades. E como também foram a favor da criação de mercados eleitorais, não estão para ofender os seus clientes. Ao terem criado uma plena farra social, em que toda a gente é a vítima e ninguém é responsável, eles nunca poderão assumir qualquer culpa. A culpa, essa é sempre do outro, visto que eles possuem o monopólio da virtude.

Os resultados são visíveis, uma classe política em que muitos poucos confiam e se revêem (veja-se o nível de abstenção), um sistema judicial em que cada vez menos pessoas crêem na fiabilidade do mesmo e uma sociedade que todos criticam e ninguém tem coragem de assumir a responsabilidade de criticar o cerne do erro. Como disse, as forças representadas não estão para chatear os seus consumidores eleitorais, tornando-se no melhor exemplo do que é ser populista. É claro que num país como Portugal o populismo não emerge, pois está mais que bem representado na Assembleia da República.

O que mais me surpreende no meio disto tudo (e que não me deveria surpreender) são os que se dizem zelosos imparciais pelos interesses da nação, quando aparece uma força com iniciativa para devolver credibilidade às instituições democráticas, são os primeiros a se esconder e a defender de forma acirrada quintais que na verdade não são seus.

Eu tenho noção que as pessoas tem medo de mudanças no status quo, no entanto, eu não creio que seja preferível continuar a viver num sistema atual que favorece à oposição e falta de diálogo entre indivíduos, que coloca cidadãos como inimigos e não parceiros sociais para um futuro próspero e plural. Aceitar o estado atual das coisas é permitir que no futuro se perpetuem os mesmos erros do presente. É necessário as pessoas desenvolverem iniciativa para mudarem o que está errado, é necessário as pessoas acreditarem em quem teve iniciativa para arriscar e acreditar que as coisas podem mudar para melhor. Não podemos continuar tolerantes com uma previsibilidade perversa em que nos propõe um futuro pobre e dependente de forças políticas que tem governado pelo seu interesse de permanecer no poder e não em representar quem os elegeu.

É necessário refundarmos o pacto social, para que as gerações tenham um verdadeiro futuro, um futuro de liberdades e não de libertinagem. É necessário ter iniciativa para fazer as mentalidades mudarem e alargarem o seu espectro. Urge a nós liberais lutar por esse futuro.

Matheus Costa

 

Brasil: Os cleptocratas no poder

Já tive vergonha e orgulho do meu país.

No segundo mandato de Lula, lembro que nunca me senti tão orgulhoso. Ainda não tinha a capacidade de analisar e criticar as coisas como tenho hoje, mas na altura lembrava de um Brasil com voz ativa no mundo, o que parecia uma verdadeira ascensão social e a possível entrada do Brasil no grupo dos países desenvolvidos. Tudo mito e mentira.

De lá para cá, aprofundei os meus conhecimentos políticos, económicos e históricos. Descobri que o mesmo tipo de políticas feitas por Lula da Silva já tinham sido feitas no Brasil e falhado ao longo prazo. Descobri também que desde a sua independência o Brasil era governado por populistas ambidestros. Até por que no Brasil não há distinção entre direita e esquerda, não por pensamento ideológico ou filosófico, mas por total amor ao fisiologismo. Agarrar o poder e não perde-lo é o objetivo central.

Não há diferença entre PT, PSDB, PMDB ou qualquer T, S, D ou B que um partido possa carregar. Isto foi possível não apenas por ignorância da população. O Brasil tem tradição corporativista, o amor ao “Estado-papai” vem da nossa génese.

Vamos analisar a origem brasileira: a maioria do povo brasileiro tem antepassados portugueses, espanhóis, italianos, germânicos e otomanos. Povos que sempre cultivaram que o Estado tem um dever de proteger o mais fraco. No entanto, esse modelo de Estado nunca defende quem alega defender, e à excepção da Alemanha (se ignorarmos o capítulo negro da sua história) foi o único que teve sucesso com esse modelo. Todos os outros tem problemas crónicos de corrupção e instabilidade. Antes mesmos de termos nos tornado povo brasileiro, acreditávamos nessa elite que dizia defender o fraco mas na verdade defende o seu ego.

Quando os corporativistas assumem o poder beneficiam primeiro as suas famílias, depois os amigos e por último distribui migalhas que sobraram ao povo, sendo que na verdade quem financiou o Estado foi o povo através do pagamento de impostos. E o populista ainda ainda usa dessas migalhas para dizer que é amante dos pobres.

Com isso, a elite política e a elite económica estão completamente relacionadas. A troca de favores que leva à corrupção, protecionismo económico através de subsídios e benefícios fiscais aos corporativistas nacionais (que não cumpre o objetivo de permitir que empresas nasçam para no futuro poder competir com as empresas estrangeiras, mas proteger os amigos que lideram empresas) e para satisfazer o grosso da população através de uma função pública que ganha muito acima da média salarial para as suas funções. Isto faz que as desigualdades não se reduzam e o Estado concentre não só o poder político como o económico. O corporativismo leva a que o Estado seja governado por ladrões que defendem o seu próprio interesse e nunca se lembram de quem os elegeu.

Em que cabeça faz sentido que o funcionário público brasileiro viva muito melhor do que o trabalhador no privado? Em que cabeça faz sentido que qualquer político eleito no Brasil automaticamente faça parte dos 10% mais ricos? Em que cabeça faz sentido os juízes brasileiros estarem entre os 10 mais bem pagos do mundo? Em que cabeça faz sentido um BNDES ter investido mais capital que o Plano Marshall na Europa?

Quem financia isso é o trabalhador comum e o empresário honesto. Esse que desde que nasceu é defraudado com impostos que asfixiam qualquer vontade que ele tenha de empreender e emergir, que não sente o retorno por parte do Estado, com uma saúde, educação e transportes públicos de péssima qualidade. Sem falar na segurança pública brasileira e a sua justiça. Nem as funções básicas do Estado, o Brasil é capaz de cumprir a sua função.

Até quando o Brasil continuará assim? Urge uma revolução liberal pacífica no Brasil. Urge ser reescrita a constituição (que de cidadã nada tem) e a emergência de uma nova classe política que seja inviabilizada de ser favorecida pelas suas funções. Temos que caminhar pelos nossos próprios pés. Se não mudarmos, vamos continuar revivendo a nossa história de períodos de grande crescimento através de políticas populistas que acabam em crises cada vez piores que as anteriores.

Tem gente que acredita que os brasileiros não serão capazes de tal, continuaremos como eterna economia e potência promessa que não é capaz de cumprir o seu destino. Mas eu não, eu tenho fé nas minhas irmãs e irmãos de pátria cujos antepassados vieram de todo o mundo e construíram esse país do zero. Tenho fé nessas pessoas que saem de madrugada de casa para poder ir trabalhar, enfrentar ônibus lotado, filas enormes em qualquer estabelecimento público, ganha um salário paupérrimo e que continua acreditando no seu país e que será capaz de melhorar de vida. Tenho fé nesse empresário honesto e decente que não recorre à corrupção e está a beira da falência devido à uma carga fiscal e à uma crise que ele não teve culpa, mas faz das tripas coração para manter a sua empresa aberta e manter os postos de trabalho. Eu não acredito mais nos políticos brasileiros, mas no seu povo!

Tenho pena de estar longe e não poder ir para as ruas gritar #ForaTemer, #ForaLula, #ForaAécio. Urge todo o brasileiro ir para as ruas e dizer que não quer mais estes ladrões que sugam o tutano do brasileiro. Isto poderá ser uma oportunidade!

Eu não vou desistir do Brasil!

Matheus Costa

 

 

 

O ’13 Reasons Why’, Baleia Azul e o falhanço das instituições

O normal seria hoje eu escrever sobre as eleições francesas. Acompanhei de perto e estou fascinado com a possibilidade de um liberal liderar uma potência europeia ou a eventualidade amarga da UE acabar com Mme. Le Pen. Mas creio que quem lerá este post é meu amigo ou conhecido e já deve estar cansado de tanto que eu falo sobre as eleições francesas. Por isso, falarei sobre outro tema.

Todos os estudantes universitários em Portugal estão numa fase de bastante stress, visto que é o último mês do semestre, sem falar para aqueles que também trabalham ou estagiam. Sexta estava cansado e cheio de dor de cabeça e vi que não valeria muito a pena estudar ou fazer qualquer trabalho. Resolvi então fazer uma maratona da tão falada ’13 Reasons Why’. A série é tão intensa que assim que eu via um episódio, queria logo ver o outro e quando dei por mim, acabei de ver a série as 2h30 da manhã.

Penso que a série é bastante completa, aborda quase todos os problemas da adolescência e da juventude de hoje em dia. Depressão (principal causa de morte entre adolescentes), namoros e amizades abusivas, bullying, cyber-bullying, traição (não só em namoros como em amizades),  peer pressure, autoflagelação (entre as principais causas de morte), superficialidade da sociedade, problemas de auto-estima e afirmação, abuso de drogas lícitas e ilícitas (entre as principais causas de morte), problemas financeiros da classe média, problemas de comunicação entre pais, professores e responsáveis, violação e suicídio (terceira maior causa de morte entre adolescentes).

Ou seja, ver a série em vários momentos é preciso ter estômago. As cenas que mais me impactaram foram as de violação e suicídio. Mas o que a série mesmo mostra é como as instituições sociais estão a falhar e morrendo de podres se não se (re)formarem.

A série mostrou que mesmo que uma menina bonita, que ia em festas, tentava ser uma jovem “normal”, que teve seus namoros e amigos pode sofrer de uma valente depressão. Como afirmei em post anterior, é difícil para muitas pessoas perceber a diferença.

A instituição família estava tão preocupada com problemas financeiros que por mais que mostrasse que amava a jovem, a mesma nunca se sentiu confiante o suficiente para expor o que se passava.

A instituição amigos, essa eu reconheço, é a que mais tem falhado nos dias de hoje. Com a Revolução da Informação muita coisa mudou. Não sei o que se passa, mas o que mais as pessoas tem reclamado é de amizades superficiais, muito se assemelhando à modernidade líquida de Bauman. Até eu já me cruzei com gente assim, que por vezes a amizade parece um mercado de satisfação do ego e não a reciprocidade e um sentimento fraterno (dessa gente eu tento me distanciar, visto que por mais eu mostre uma outra postura, a pessoa está numa espiral egoísta em que tem que levar um choque por ela mesma, pois falar parece que não resolve). Muitos jovens achavam que aceitar a diferença é aceitar o exótico, sendo que a diferença está presente em coisas simples. E isto dá para ver com Hannah, quando ela não era mais suficiente para preencher o ego, era descartada pelas pessoas que cria serem seus amigos.

A instituição namoro, casamento ou qualquer outro tipo de relacionamento, ali é interessante porque mostra o desconhecimento dos jovens, as primeiras experiências e por vezes muitos deles tem falta de um referencial (e tentam encontrar apoio em amigos, em que muitos se tornam abusivos). A maioria queria acreditar na felicidade e encontrarem um par para a vida, mesmo vendo tanta infelicidade e superficialidade ao redor, salvo raras excepções.

A instituição escola, aqui é que se vê a maior desresponsabilização. O que reparei na série e encaixo com o dia a dia é que os professores, a direção e os psicólogos de alguma forma parecem ter pedido aquele sentido de missão para profissão. No meio do stress de tantos alunos, a missão de formar cidadãos para a sociedade se perdeu para bons resultados académicos e uma boa faculdade para prosseguimento dos estudos. Posso dizer que a nível de professores e escolas que já frequentei, eu, criança e adolescente, conseguia perceber isso (mas não a este nível de elaboração). Percebia quando um professor ou funcionário queria de alguma forma nos impactar e fazer de nós melhores pessoas, mesmo com as suas vidas atribuladas. E também percebia quando havia aqueles que só vinham fazer o seu serviço.

A série mostra uma ausência de valores, o indivíduo em formação à mercê de si próprio, sem unidades e instituições de apoio moral. E também mostra que talvez quem tem coragem de ser ele mesmo, e com isso até sofrer certa exclusão, poderá estar melhor do que os outros (Clay). E também mostra como ser você mesmo pode ser levado ao ridículo (como tantas personagens).

O que tenho pena é não terem mostrado o falhanço político de uma maneira brilhante como mostraram os outros. Se viram a série ou se verão, reparem como as autoridades procederam. Ninguém enfrentou diretamente o problema, queriam se desresponsabilizar o mais cedo possível. E isto posso fazer um paralelismo com o Baleia Azul. Já repararam como as nossas autoridades tem agido? Querem tirar do ar sites e pedir para que as vítimas se exporem (como se a vítima tivesse força para isso no momento). Ninguém está preocupado em trabalhar com a prevenção, e a série, feita por iniciativa privada, teve um efeito preventivo muito maior e mais impactante do que qualquer autoridade até ao momento.

O que se passa com a nossa sociedade que permite as instituições falharem? Ninguém mais parece estar preocupado se a família dá errado e se separa, se amizades falham e acabam, se namoros e casamentos são grandes fracassos, se a escola e as autoridades políticas não se preocupam. Lidar com o fracasso é uma coisa boa que todos nós teremos que passar e aprenderemos muito com isso. Mas, permitir a objetificação de indivíduos e instituições sociais, tratar o seu fracasso como tratam um telemóvel que já está desatualizado, sendo preciso criar algo novo do além para preencher temporariamente o meu ego é que não.

Creio urgente um debate forte na arena política sobre os problemas que os jovens estão a passar, pois serão os cidadãos que irão liderar a República no futuro. Do que adiantará o progresso técnico e económico se não somos capazes de integrar os indivíduos na sociedade? O populismo e o extremismo estão aí sedentos por vítimas fáceis, cuidado.

Matheus Costa

 

Ser Diferente

Desde que sou capaz de raciocinar estas coisas, tenho noção que sou muito diferente da generalidade das pessoas.

Quando era criança reparei que nem sempre poderia professar livremente a minha fé, visto que incomodava (e ainda incomoda) muita gente. Mais tarde descobri que era parte do que se pode ser chamado minoria religiosa (e sim, detesto o termo religião porque pode dar azo à hipocrisia e ao conflito, preferindo antes confissão).

Por acaso, sou cidadão de Estados em que a nível cultural não existe distinção étnica (no máximo grandes grupos de pigmentação), mas antes uma nação ou nacionalismo. Desse modo, não me preocupava o quão miscigenado era. Descobri que por mais que todos nós fossemos uma amálgama de etnias, pelos relatos familiares eu era excepcionalmente misturado. Além do mais, na minha família parece que a migração voluntária (e até involuntária) é regra geracional. Antepassados que migraram para o Brasil e os meus pais que migraram para a Europa. Isto, durante algum tempo na minha adolescência, assustou-me. Se alguém perguntar a que grupo me enquadro, não sei o que responder. No Brasil foi criado um conceito que é pardo, mas não gosto do termo porque me faz lembrar o urso.

Com isto, comecei a ter uma postura submissa de não querer irritar a “maioria”. Afastei-me da agenda da esquerda, porque vi que aquela agenda de progressismo populista na verdade irritava as pessoas e a nível prático em nada mudava o meu dia a dia. Tudo era feito para agradar grupos que se acham (ou foram levados a achar) minoria desfavorecida – sem falar que na agenda económica sempre fui a favor do capitalismo – ou seja, o objetivo final era apenas o voto e não mudar as coisas. Apenas restou a direita conservadora portuguesa. Não queria irritar ninguém (como se fosse possível tal).

O que reparei foi que as pessoas são levadas a irritar. O maior trunfo do populista é fazer o cidadão incauto pensar que ele não tem culpa de nada, que ele é a vítima. Impera culpar o outro, há que dividir a população e fazer que grupos se odeiem. Quando percebi isso, vi que na verdade não importava ser diferente, todos somos. Afinal, “A maior minoria na Terra é o indivíduo” (Ayn Rand). E também descobri que fui mal ensinado sobre o liberalismo, tinha sempre um pouco de vergonha de me identificar com tais princípios. Quando investiguei por mim próprio, vi que oportunamente ninguém fala sobre o sistema social liberal. Não dá jeito ensinar estas posições, há que mostrar o lado radical do liberalismo, mas sempre mostrar, apenas e só apenas, os lados moderados dos socialistas, sociais democratas e conservadores. Não dá jeito ensinar que quem criou o moderno Estado Social Britânico foi o Partido Liberal. O Estado paizinho é que é fixe, não permite a ascensão social, mantém as dinastias sociais e diz que se responsabiliza porque atira dinheiro pela janela para os mais desfavorecidos. O Estado paizinho só serve para manter o interesse dos grandes corporativistas, o pequeno e médio corporativista que foge aos impostos e tem uma péssima produtividade e expulsar o empresariado competitivo e inovador e destruir a meritocracia.

Com isto, descobri que para estar integrado não preciso ser igual à generalidade ou agradar alguém, mas ser igual a mim mesmo e saber compreender a diferença do outro. É difícil para algumas pessoas perceberem isto. Eu não tenho que ter as mesmas vivências e os divertimentos que todas as outras pessoas tem ou tiveram em certa idade. Se toda a gente se diverte com algo, tenho direito a não me divertir com tal e até a não gostar. Tenho direito a ter uma posição que possa desagradar a todos (desde que não desrespeite ninguém). E querer fazer que eu ou outros sigamos esse estilo de vida não é proteger, é prender. Um dos meus maiores apelos é, parem de querer proteger o outro, na verdade estão a prender. Se o seu valor é que está correto a pessoa vai perceber isso por ela própria. E neste aprisionamento, o que mais vejo é gente que chega à vida adulta emocionalmente frágil, incapaz de assumir os próprios erros, incapaz de compreender o outro e de enfrentar desafios e críticas. A sociedade está a criar vítimas fáceis de populistas e extremistas.

Cada vez estou mais convicto que não querem que se aprenda que devemos nos orgulhar e respeitar em sermos TODOS diferentes uns dos outros, pois é isso que afirma a nossa identidade e valores individuais. Promover o discurso de defender as minorias é o mesmo que manter vincado separações sociais e não integrar as pessoas. É faze-las seguir um pensamento e não o seu próprio pensamento. Temos que defender o indivíduo. Ser diferente e minoria não é excepção, é regra.

Matheus Costa

 

 

Macron Não Teve Sorte

Em Portugal (por motivos de protecionismo político) falam que Macron teve sorte nas eleições. Eu elenco uma série de motivos que mostram o por quê ele não teve sorte e um quarto do eleitorado o votou como primeira e melhor alternativa.

Macron já teve discursos chatos, extremamente teóricos e longos. Quem é que tem paciência de ouvir um político que explica que favorecer agricultores franceses será bom para a competitividade e não será uma medida protecionista? Ou a diferença entre Laicidade e laicismo? Orgulho-me de saber que milhares de franceses tiveram.

Em plena discussão sobre imigração, refugiados, islamismo e LGBT o mesmo se entreteve a falar de outras minorias como judeus e protestantes. Coisa que não está na ordem do dia da França.

Outra coisa que também não está na ordem do dia, e o mesmo fez questão de falar foi sobre os cuidados das crianças com deficiência.

Em pleno período com alta taxa de desemprego e défice público, o mesmo vem ao eleitorado dizer que a solução está no empreendedorismo e baixar os impostos para quem produz, assim como flexibilizar a lei laboral.

Das únicas medidas que vão ser notadas a curto prazo nas suas propostas serão a possibilidade de um francês comprar apenas uma unidade de medicamento, a redução do imposto patrimonial para as classes baixa e média, o fim dos impostos extras para as profissões liberais e a facilitação do empreendedorismo jovem.

Não ficando por aí, ele consegue defender a União Europeia de forma crítica. Vem ao público e reconhece as falhas do projeto europeu, coisa que a esmagadora maioria dos europeístas não são capazes. Entre elas, a falta de harmonização de normas de produção e uma competição justa entre países.

O próprio assume que haverá riscos no seu projeto, que não será fácil, será um longo caminho com efeitos que na sua maioria não vão ser logo sentidos.

Eis que pergunto, com um discurso que não é fácil e sem mega efeitos de curto prazo, alguém de facto acha que os resultados eleitorais da primeira volta foram sorte?

O que me assusta é que entre o Sol girar em torno da Terra (Le Pen) e a Terra girar em torno do Sol (Macron), exista o risco real dos franceses escolherem o arcaísmo de soluções que não resultam.

Matheus Costa

Porquê vem aí uma revolução liberal?

A Europa anda agitada e as forças tradicionais tem dificuldades em perceber a mudança. É normal, depois de décadas na defesa de grupos económicos corporativistas e partidarização e profissionalização da política, quem atualmente lidera os partidos tradicionais se alheou da realidade (assim como os seus seguidores incautos). E os críticos do velho circo, como não foram capazes de fazer algo antes, querem destruir o que as pessoas com iniciativa pretendem fazer.

Vem aí uma revolução liberal porque depois de tantas políticas populistas, entre os jovens nasce uma vontade de não lhes empobrecer o futuro. Estamos fartos de uma dívida impagável da qual não pedimos, numa sociedade que através do protecionismo económico dos grandes corporativistas, nos roubaram a liberdade de empreender. Não apenas empobreceram o nosso futuro, mas já empobreceram o nosso presente. Ainda estamos a tempo de ultrapassar.

Vem aí uma revolução liberal, porque depois de décadas sendo enganados, os portugueses descobriram que afinal precisavam lutar pelas suas liberdades políticas e económicas. E isto favorecerá a revolução liberal. Os cidadãos delegaram o seu poder através do voto, na confiança de uma classe política que os defraudou e alienou as suas liberdades. Acaso os cidadãos europeus e no nosso caso, portugueses, não gostassem dos valores liberais, a multiplicação de plataformas liberais não seria tão bem vista como tem sido e nem tão amplamente discutida.

Vem aí uma revolução liberal, porque no mundo após a Revolução da Informação, não faz mais sentido reestabelecer fronteiras, acreditar num nacionalismo económico. Assim não fosse, por todo o país não se teriam multiplicado restaurantes asiáticos, no Pingo Doce não se venderia pão de queijo e nem a Cigala faria publicidade de noodles.

Vem aí uma revolução liberal, porque num mundo sem fronteiras e de fácil comunicação, os jovens não querem se limitar de trabalhar e se divertir apenas num país. Querem ter outros tipos de experiências, fazer Erasmus e intercâmbio, viajar a trabalho e a lazer.

Vem aí uma revolução liberal, porque não faz sentido nem o conservadorismo da extrema-direita ou a radical social-democracia da extrema-esquerda. Sabemos nós que somos todos diferentes, gostamos da diferença e não vale a pena de uma forma artificial (extrema-esquerda) ou de exclusão (extrema-direita) tentar nos homogeneizar. Estamos “Unidos na Diversidade”.

Vem aí uma revolução liberal, porque toda a gente reconhece a necessidade de mudança. É pena que nem todos querem ajudar a mudar.

Matheus Costa