INVESTIGAÇÃO E INSTRUÇÃO

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No mesmíssimo dia em que se discutiu o sorteio de um Juiz de Instrução para o “Processo Marquês”, fui notificado de que o Processo de Investigação 9381/10.7TDPRT tinha sido concluído e que decorria o prazo para me constituir como assistente, nos termos do artº 68º do CPPenal.

Mas que é isto?
Em dia de sorteio tão decisivo para o futuro do gamanço organizado, nada mais deveria ofuscar tão notável acontecimento.
Acontece que a notificação, esta que recebi, vem do Ministério Público – Procuradoria da República da Comarca do Porto e está datada de 18 de Setembro, o que torna ainda mais lamentável a tentativa de me distrair daquilo que mais me deveria interessar – o sorteio de um Juiz em Lisboa. Estou em crer que não terá sido de propósito que o MP do Porto fez coincidir a minha notificação em tal data, até porque ninguém poderia prever que, talvez devido à inesperada greve dos táxis, a notificação referida demoraria 10 dias para percorrer os 12 Km que distam da minha residência à Rua de Camões, 155 na Invicta.

Mas que é isto?
Também foi o que me perguntei a mim mesmo. É que nunca tinha recebido uma notificação do MP acompanhada de um DVD. E foi cheio de cuidados que carreguei no botão que abre o leitor de DVDs do meu HP pavilion de 2014, que tinha este extra ainda virgem. Com a delicadeza que essa qualidade merece, lá introduzi o objecto recebido e, suavemente o empurrei para a posição de leitura, naquela dúvida que sempre nos assola quando uma velharia é chamada a fazer o que foi feita para fazer: faz mesmo ou explode? Correu bem e fiquei a saber que tinha sido proferido um despacho relativo a um processo em que fui interveniente em 2010.

Mas que é isto?
2010? Sim, 18 de Maio de 2010. A minha filha Ana, fazia 15 anos nesse dia e eu, eu nunca me deveria esquecer da data. Mas um gajo não é de ferro e, de facto estava já completamente esquecido. Foi preciso o DVD do MP para mo recordar e estou-lhes, óbviamente, grato. Lembram-se de um grupo de ciganos, quer dizer, cidadãos de uma certa etnia, ter organizado um esquema tipo “Afia Tesouras”?

Mas que é isto?
“Afia Tesouras”? Não liguem. é um nome que inventei agora para um processo de investigação. Acho que lhe dá outro “elan”. É que em 2010 o MP ainda não tinha o gabinete de dar aqueles nomes de código giros aos processos. O “Afia tesouras”, hashtag #afiatesouras# era assim: Um cigano, ou dois não interessa, quer dizer, pessoas de uma certa etnia, chegavam a uma fábrica e perguntavam se não havia equipamentos de corte para afiar. Se obtivessem algum material, afiavam-no, e apresentavam a conta. Se a fábrica não pagasse chantageavam-na.
Simples!
Ora nesse belo dia, aparece um par de jovens (assim não preciso de de falar em etnias) na minha empresa e monta o esquema. A malta da manutenção, o João Carlos e o Nogueira, lá descobre uma serra circular, quatro fresas, seis brocas e uma tesoura, tudo material já devidamente separado para reciclagem e entregam-no para recuperação que foi feita quase de imediato e veio devolvida, acompanhada do, a princípio gentil, pedido de pagamento: 14 mil EUR. Ora isto gerou um impasse porque aquele material todo, em estado de novo, custava menos de mil EUR. De modo que houve ali uma ruptura negocial porque a minha malta não ficou convencida de que aquela recuperação, com tratamento a “perlimpimpim e tungsténio” faria as ferramentas durar até ao apocalipse. Os gajos abandonaram a empresa e foram chamar o patriarca, o Cuevas, como depois se apresentou. E foi aí que eu, como Presidente da empresa vim também a jogo e me inteirei da situação que era relativamente simples: ou pagávamos 14 mil EUR ou levávamos um “tiro nos cornos” – O João Carlos tinha 2 filhos pequenos, o Nogueira estava escalado para apitar jogos de basquete nesse fim-de-semana e eu, eu tinha a família e mais convidados em casa á espera para o jantar de aniversário da minha filha, como já disse. De modo que o “tiro nos cornos” não era a nossa opção favorita nesse dia e pagar era impossível. Lá conseguimos um adiamento de 24 horas e no dia a seguir, com o reforço da PSP de Matosinhos, o gang cessou a actividade que lhe tinha permitido extorquir mais de cinquenta empresas em cerca de 3 meses de “trabalho”.

Mas que é isto?
2018? Sim, ao fim de 8 anos, o MP conclui a investigação. É um DVD de 847 páginas que sintetiza um processo com mais de 12 mil folhas, com centenas de inquéritos, com autos de reconhecimento fotográfico e presencial, com cópias de cheques e extractos bancários, cópias de livretes de automóveis, de certidões judiciais de contumácia, o diabo a quatro e depoimentos testemunhais.
Um brinco! E em DVD!
Só espero que o advogado do gang Cuevas não se lembre agora de pedir a Instrução do Processo, com o respectivo sorteio de Juízes, de forma a assegurar que o julgamento esteja em condições de ser iniciado quando os crimes estiverem prescritos!

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