A Trela de Donald Trump

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Disclaimer: Note-se, desde já, que este não é um artigo académico pelo que os conceitos serão utilizados de forma a que o cidadão comum compreenda o teor geral do artigo

Recentemente, os líderes da Coreia do Norte e da Coreia do Sul encontraram-se na fronteira que divide os dois países num encontro histórico.

Para perceber de forma leve a importância deste momento, precisamos recuar, pelo menos, até à Guerra da Coreia que decorreu entre 1950 e 1953 e perceber o que estava em causa nesta guerra. O resultado desta guerra determina, ainda hoje, o status quo da zona.

Estávamos em pleno período de Guerra Fria, que surgiu após o fim da II Guerra Mundial, e que dividia o “mundo capitalista” liderado pelos Estados Unidos da América (EUA) e o “mundo comunista” liderado pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). A Coreia do Norte invade a Coreia do Sul e despoleta-se o conflito.

O culminar desta guerra resultou numa divisão territorial entre comunistas – Coreia do Norte – e capitalistas – Coreia do Sul.

Com isto, é visível a olho nú as diferenças entre os dois países. Vulgar é a fotografia onde são visíveis os dois países do espaço, representativa das diferenças, onde na Coreia do Norte não vemos praticamente luz, excepto em Pyongyang, ao contrário da Coreia do Sul, iluminada de norte a sul em todo o território. [1]

A Coreia do Sul deu-nos a Hyundai, a LG, a Samsung. Sobre a Coreia do Norte não disponho de registo mas está em 180º lugar no ranking de liberdade económica mundial, abaixo de países como a Nigéria (160º lugar), a República Centro Africana (163º lugar) e Portugal (72º lugar).[2]

Este conflito foi um dos conflitos regionais que ocorreram durante a Guerra Fria. Os dois países que lideravam os blocos ideológicos não guerrearam directamente entre si mas apoiavam logística, financeira e/ou militarmente as facções locais. A Guerra do Vietname (1955-1975), foi outro exemplo, na minha óptica desastroso, com a traição política e social de parte da sociedade norte-americana tendencialmente marxista que, pressionando os EUA a recuar o seu apoio ao Vietname do Sul (que também era apoiado por países aliados anti-comunistas como Austrália e a Coreia do Sul), deixou a facção comunista, apoiada pela URSS e pela China, dominar o sul que resultou na pobreza do país e da região (nem falemos da calamidade do Cambodja e do Laos) e na morte e tortura de milhões de pessoas. Apenas recentemente a região tem se reerguido. David Horowitz, ex-comunista norte-americano, é brilhante na sua análise sobre o tema. [3]

No caso das Coreias, conflito antecessor, foi algo diferente. A Coreia do Sul e os EUA conseguiram vencer a guerra permitindo que o país se libertasse do jugo comunista que queria dominar a região. Dominou apenas a zona norte que, tal como é do conhecimento geral, é um regime totalitário comunista onde as pessoas morrem à fome não lhes sendo permitido sair do país. Os que saem, quase milagrosamente, contam a sua luta e o seu anseio pela liberdade. E alguns, é no Ocidente que encontram o seu oásis.

A Coreia do Norte, tal como qualquer país comunista, sempre odiou o Ocidente. O seu ódio é flagrante na sua propaganda onde os EUA aparecem sempre a ser dominados militarmente pelo país.[4] Nos EUA, qualquer pessoa poderia e continua a poder erguer uma bandeira norte-coreana e viver livremente, o inverso é impensável. Podemos ser comunistas em sociedades capitalistas, mas não podemos ser capitalistas em sociedades comunistas.

A RAND Corporation, no seu segmento online de “Informing Incoming Government Leaders” abordava a Coreia do Norte na sua publicação denominada “A Nuclear North Korea”. É reconhecido, de imediato, que o arsenal nuclear da Coreia do Norte tem aumentado significativamente considerando que o país terá já material físsil suficiente para construir entre 13 a 21 armas nucleares e por volta de 2020 teria capacidade para possuir entre 50 a 100. O país conseguirá já despoletar as armas via aérea ou marítima e estaria a desenvolver mísseis nucleares capazes de atingir território para além do Oceano Pacífico.[5]

A bomba nuclear foi desenvolvida em plena II Guerra Mundial pelos EUA com base no receio que existia da Alemanha Nazi estar a desenvolver o mesmo tipo de armamento, na altura, sem se saber ou prever ainda o tipo de consequências e efeitos que as mesmas teriam.

Hoje sabe-se. E imaginem a Alemanha Nazi com bombas nucleares.

O perigo das bombas nucleares assenta, particularmente, na imprevisibilidade daqueles que as detêm. E não considerem válido o argumento de que apenas o Ocidente é que quer ter armas nucleares. O Conselho de Segurança das Nações Unidas é constituído por 15 membros, 10 não flutuantes e 5 permanentes: os 5 países permanentes do Conselho são todos países detentores de armas nucleares: EUA, Rússia, China, Reino Unido e França. Outros países detêm armas nucleares como p.ex: Índia e o Paquistão. Não são todos países ocidentais nem são todos livres.

Entretanto aparece Donald J. Trump com o seu tweet super malvado em que chama Kim Jong-un, líder da Coreia do Norte, de “Little Rocket Man”. A troca de galhardetes que antecedeu este episódio e que continuou após o mesmo, na óptica da esquerda mundial, dos liberais e libertários (aliás, qual é o intelectual que não odeia o Trump?), demonstravam a sua inexperiência em tratar temas sensíveis e de gerir conflitos e questões políticas.

Todos receavam um III Guerra Mundial que culminasse no fim dos tempos. O perigo vinha sempre dos EUA, nunca da Coreia do Norte e dos seus aliados, Rússia e China. Era impensável a Coreia do Norte atacar os EUA com armas nucleares, ignorando por completo o seu ímpeto bélico, mas era perfeitamente credível o perigo iminente que é Trump e o seu Twitter.

Resultado? Os líderes dos países coreanos aceitaram encontrar-se e o evento histórico, de facto, ocorreu. Até agora, existem notícias de que a Coreia do Norte irá abdicar das armas nucleares, libertar prisioneiros norte-americanos e adoptar o fuso horário do sul em sina de boa vontade. Independentemente das críticas ao Trump, ele agora teve um sucesso que mais nenhum outro político experiente norte-americano teve. Até novos desenvolvimentos, prefiro confiar na inexperiência do Trump do que na experiência de qualquer outro político.

Sara Albuquerque

Fontes:

[1] Korean Peninsula Seen From Space Station https://www.nasa.gov/content/korean-peninsula-seen-from-space-station, 24 Fev 2014

[2] Country Rankings – https://www.heritage.org/index/ranking, 2018 Index of Economic Freedom

[3] “My Vietnam Lessons” http://www.discoverthenetworks.org/articles/my%20vietnam%20lessons.htm, 2003 (excerto do seu livro “Left Illusions: Na Intellectual Odyssey”)

[4] “With color and fury, anti-american posters appear in North Korea” https://www.nytimes.com/2017/08/19/world/asia/north-korea-posters.html , 19 Ago 2017

[5] “A Nuclear North Korea” – https://www.rand.org/research/primers/nuclear-north-korea.html

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