CONTO DOS LUSITANOS

“Estradas, meus caros, estradas!” Sabendo que a generalidade dos ansiãos não fazia a mínima ideia do que seriam estradas, acrescentou: “isso fará toda a diferença, passaremos a estar ligados a Roma e faremos parte da civilização, será o fim da miséria em que vivemos.

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Viriato decide reunir o Conselho de Ansiãos Lusitanos para analisar a resposta à exigência de Vetílio, cônsul local enviado por Roma, para que os Lusitanos passem a pagar um tributo, “o dízimo”, em contrapartida dos muitos serviços que serão prestados ao Nobre Povo Lusitano.

Os ansiãos mostram-se nervosos, não só com a presença recente dos romanos, mas com a utilização por parte de Viriato de todo um novo vocabulário.

A começar pela palavra “exigência”. Então alguém se atreveria a dirigir-se a um proprietário de um bem, honrada e esforçadamente adquirido, fosse ele uma casa ou uma cabra, uma pedreira ou um pomar e exigir que lhe fosse entregue uma fracção desse bem? Em troca de quê?, questionavam.

– Pois, já explico – contrapunha Viriato, tentando também ele perceber o novo cenário que lhe tinha sido apresentado – digamos que não é uma troca imediata, os benefícios surgirão a prazo!

– Mas se não é uma troca imediata, porque a aceitamos? Podem alguns de nós recusar?

– Não, esclareceu Viriato, a recusa tem punição pela espada, não desejarão os romanos ver que existem pessoas desobedientes. Esse comportamento será exemplarmente punido, para que outros o não repitam.

– “Mas então,” contrapôs alguém, “se me é exigido parte do meu património, em troca de nada e sob ameaça de espada, qual a diferença para o roubo de que de vez em quando somos vítimas? O que distingue a exigência do tributo, de um assalto em que um encapuçado nos anuncia “um cabrito, ou a vida”?

– “As contrapartidas, os serviços, enfim… para além de não lidarmos com embuçados mas com homens de capacete, são… sem mais demoras… pois, temos de falar dos benefícios e das contrapartidas… segundo percebi – e vamos ser prácticos – acontecerá o seguinte: quem tiver 20 novos cabritos nascidos dá 2 ao Cônsul, quem explorar uma mina dará um décimo da produção anual de pedra britada, quem colher 50 arrobas de batatas ou maçãs dará 5 arrobas de batatas ou maçãs ao Cônsul e por aí fora. Parte destes produtos será utilizado para pagar a quem vai realizar as obras que Roma pretende ver realizadas, parte destes produtos será utilizada para sustentar os romanos que nos ocupam e parte seguirá para Roma, para pagar a quem pensou em tudo isto.”

– “E que obras serão essas?” ouviu-se.

– “Estradas, meus caros, estradas!” Sabendo que a generalidade dos ansiãos não fazia a mínima ideia do que seriam estradas, acrescentou: “isso fará toda a diferença, passaremos a estar ligados a Roma e faremos parte da civilização, será o fim da miséria em que vivemos. As estradas são o meio que nos permitirá aceder a novas riquezas e culturas e nos permitirá chegar a Roma num instante. A construção da estrada será uma oportunidade para os filhos de lavradores sem rebanho, por exemplo, ganharem uma cabra por participarem no projecto, construindo a estrada”.

Finalmente o cenário mostrava-se interessante. O verbo mágico “ganhar” tinha trazido algum apaziguamento à angústia que se tinha gerado. Seguiu-se um momento de silêncio em que alguns dos ansiãos calculavam quantos dos seus descendentes se poderiam empregar em tal empreitada e até em quantos novos rebanhos poderiam ser gerados para a comunidade.

O ambiente no Conselho de Ansiãos, tenso que estava no início, desanuviara-se e até mesmo Viriato, que no início tivera dúvidas sobre o negócio que lhe fora por Vetílio proposto (por lhe parecer imoral), começava a considerar, à medida que repetia por palavras suas a conversa que tivera, de forma positiva os impactos que teria.

O velho Abel, por todos respeitado pela sua sabedoria, por ser capaz de prever quando as mulheres paririam, quando a lua nova surgiria, ou quando se deveriam fazer as sementeiras, o velho Abel, aclarou a garganta em sinal de que queria falar, e os murmúrios cessaram. Tardavam as suas palavras e era certo e sabido que o Conselho dos Ansiãos não deliberaria – nunca o tinha feito!, sem o ouvir. Abel, parecia em transe, percorria os rostos de todos e de cada um dos Ansiãos reunidos, repetidamente, como se nunca os tivesse visto antes, retomando o processo várias vezes antes falar. Disse:

– “Ficaremos todos mais pobres: Tu, que vais perder 2 cabras, estás feliz porque o teu filho vai receber 2 arrobas de milho, quando voluntariamente trocas 2 cabras por 10 arrobas de milho e, pergunto, também estás feliz por teres de adiar a construção do novo celeiro, que o teu filho deixará de fazer por ter de ir trabalhar na construção da estrada? tu que vais perder 20 arrobas de batatas estás feliz por receber 1 cabra, quando, voluntariamente só as trocas por 4 cabras. Tu, que vais deixar de ter pedra para uma das 10 casas que costumas construir todos os anos, estás feliz por o teu filho ir receber uma quantidade de batatas, milho, maçãs e cabras muito inferior às que obterías com a construção da casa cuja pedra os romanos te exigem. Não vêem vocês”, prosseguiu, “que o sustento dos soldados e aquilo que chegará ao Imperador romano e suas cortes é exactamente o que faltará à nossa comunidade? Que o trabalho que aplicarmos na construção da estrada é o nosso trabalho que deixa de ser aplicado nas coisas de que cada um de nós mais necessita? É certo que teremos uma estrada mas não esqueçamos nunca que essa estrada tem para cada um de nós um custo muito mais elevado por ser construída não voluntariamente. A estrada é só um estratagema para nos devolverem, como contrapartida de trabalho adicional que nos exigem, parte dos recursos que nos roubaram*. E isso é imoral!”

Findo o discurso, o ambiente tinha novamente mudado e Viriato diz: ”Defendo que não paguemos tributos a Roma!”

– “Mas então…”, interrompe um dos membros, “quem vai construir as estradas?”

*IMPOSTO É ROUBO

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