A despedida de Merkel

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O meu artigo no Jornal Público de hoje.

 

Merkel está apostada, custe o que custar, em manter viva no seu país a cultura da estabilidade, que tem sustentado o tão sagrado capitalismo renano. A hiperinflação dos anos 20 tornou os alemães muito vigilantes relativamente às suas finanças e para evitar derrapagens indesejáveis o Bundesbank assumiu no pós-guerra o controlo severo das taxas de inflação. Mas politicamente está a ser cada vez mais difícil para Merkel manter a solidez a que se habituou, com a extrema-direita a ameaçar o seu espaço vital. A CDU perdeu, aliás, quase um milhão de eleitores para a AfD o que não deixou de superar as melhores expetativas dos radicais alemães. Merkel, no poder há 12 anos, nunca se viu num cenário tão crítico, sem lograr sucesso na constituição do seu futuro Governo e na iminência da dissolução do Parlamento que a poderá prejudicar ainda mais nas urnas.

Não é só no tema dos refugiados e na derrota do multiculturalismo que a AfD ganha dianteira, também tem capitalizado por via das fraquezas do atual Executivo, isto porque a chanceler embora tenha ganhado popularidade na gestão da crise do Euro, tem falhado consecutivamente numa das suas promessas históricas: acelerar as reformas estruturais dos sistemas alemães. Um acordo com Schulz que garanta um apoio estável de incidência parlamentar é, neste momento, o cenário mais previsível. Mas a tendência de quebra eleitoral na Europa das forças moderadas não é sinal de bom augúrio nem para Merkel nem para Schulz e caso este último, que gere atualmente uma grave crise estratégica e de identidade do seu partido, aceite viabilizar um Governo à CDU, perderá a última oportunidade para se insurgir como uma alternativa inequívoca contra o projeto centrista, antecipando assim a extinção do SPD no espetro.

Quanto à CDU terá que se reinventar nos próximos anos e recuperar em pouco tempo do desgaste de Merkel junto do eleitorado alemão, se quiser manter-se como o único projeto seguro para o país. Mas com a mesma líder? Embora não haja limite para o número de mandatos como chanceler, Merkel não admite publicamente, mas já percebeu que está a expirar a sua validade e sairá pelo próprio pé no fim do próximo mandato, depois de escolher o seu sucessor a meio da legislatura, em 2019.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

Pedro Borges de Lemos

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