O lobo e a hiena – recensão

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“O lobo e a hiena: o plano para a conquista da Europa”, de Rui Manuel Silva

Este é um livro cuja edição (Alêtheia, 2017) se saúda e cuja oportunidade se assinala pois ocorre no ano em que se “celebra” o centenário da que ficou conhecida por Revolução de Outubro, ainda que apenas diga respeito à frente leste na II Guerra Mundial, ou seja, à historiografia do épico confronto germano-soviético. Por um lado, dá a conhecer em português uma leitura interpretativa daquele conflito radicalmente diferente da veiculada em milhares de livros que se escreveram sobre o assunto e que constituem hoje o suporte à narrativa oficial – Hitler infligiu à “pacífica” União Soviética um ataque à traição com tal desproporção de meios que aos soviéticos não cabia outra alternativa senão ceder terreno para posteriormente suster o avanço alemão e partir daí para o contra-ataque; por outro, porque este volume não se limita apenas a difundir uma leitura revisionista já existente da IIRui_Silva_oloboeahiena Guerra Mundial, uma vez que assenta em pesquisa autónoma levada a cabo pelo próprio autor que permite expandir convincentemente, de forma documentada, a tese de Viktor Suvorov divulgada no Ocidente em 1990 em Icebreaker e posteriormente desenvolvida em The Great Culprit (2008) – o ataque da Alemanha à URSS em 22 de Junho de 1941 (Operação Barbarossa), numa altura em que a frente de guerra no Ocidente não está resolvida, ocorreu por antecipação à manobra ofensiva que Estaline preparara e estava prestes a dar a ordem de execução, isto é, atacar a Alemanha, e que ultimamente visava não só derrotar Hitler como assenhorar-se de toda a Europa e não apenas da Europa de Leste (como viria a acontecer).

Por outras palavras, nem Hitler – o lobo – nem o seu Estado-Maior eram loucos. Eles não escolheram voltar a ter uma guerra em duas frentes, não tiveram foi alternativa perante a mobilização de meios que sabiam estar a ocorrer do lado de lá da fronteira (recorde-se que em território polaco). Tratava-se da sobrevivência da Alemanha pois caso não se tivessem antecipado teria ocorrido um ataque maciço por parte da maior concentração de tropas e equipamentos da história que Estaline – a hiena – havia concentrado bem perto da sua fronteira oeste. Paradoxalmente, e porque todo este gigantesco conjunto de meios bélicos visava o ataque à Alemanha e, por conseguinte, se encontrava implantado no terreno com intenção ofensiva, residiria aí a sua principal fraqueza e a explicação para as monumentais derrotas que os soviéticos sofreram desde o primeiro dia da invasão (até serem detidos às portas de Moscovo nos finais desse mesmo ano). Desprovidos de planos defensivos, o comando operacional soviético praticamente desapareceu perante os exércitos alemães e os soviéticos fugiram em debandada nos camiões de transporte, abandonando milhares de tanques, canhões, obuses, combustível, etc. Quem se dispôs a resistir, foi cercado e metodicamente destruído. Mais de 2 milhões de soviéticos foram feitos prisioneiros. Uma das desculpas muitas vezes avançadas para esta hecatombe – a de que os alemães disporiam de material de guerra mais moderno que os soviéticos – não sobrevive perante a evidência disponível. Do ponto de vista de qualidade, o material soviético era do melhor, senão mesmo o melhor, que existia no mundo àquela data; relativamente à quantidade, os seus números eram maiores que o das outras potências todas somadas àquela data.

Uma palavra para saudar a utilização da ortografia pré-acordista; uma outra para lastimar o trabalho (?) de revisão do texto, facto que também tinha detectado, e me incitou a escrever um email de protesto à Alêtheia aquando da leitura da tradução de O Último Estalinista. Por último, num livro de 552 páginas e muitas referências, a falta de um índice analítico é notória.

Em suma, e apesar destes dois últimos apontamentos, O lobo e a hiena é uma obra muito interessante e substantiva, escrita de uma forma escorreita e não enfadonha. Com ela se ilustra, uma vez mais, que a História é uma disciplina bem viva mesmo quando muitos  dos seus agentes há muito morreram.

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