Namorar uma pessoa madura (2)

Texto lido : https://www.youtube.com/watch?v=9r1a2moYSyE

No artigo precedente[1] publiquei um texto de Sophie W. sobre o namoro entre pessoas maduras e imaturas. Aqui vou fazer o paralelo entre o liberalismo e a madureza, e o estatismo e a imaturidade.

Basta simplesmente recopiar o texto precedente e substituir as palavras “madura” por “liberal”, e “imatura” por “estatista”, tendo em mente claro que não falamos só de namoro mas também de comportamento social e político. Vejamos então isso e porquê o podemos fazer:

 

 Ao namorar uma pessoa liberal, não precisa preocupar-se o tempo inteiro sobre o que ela pode ou não estar a fazer. Já uma pessoa estatista é sempre instável, pode armar uma briga para ferir a vossa relação.

O liberalismo é uma filosofia sobre o Direito e o individualismo. É uma filosofia que quer descobrir um Direito coerente e justo, e para o fazer defende o direito de cada individuo de fazer o que bem entender na sua esfera ou na esfera dos que consentiram às suas acções. Isso implica que não há, no liberalismo, a preocupação em vigiar todos os aspetos das vossas vidas. Não há lugar para a inveja. Não há tão pouco lugar para castigar quem não violou a vossa propriedade ou não violou os acordos que passou com ela, sob o pretexto que feriu a vossa sensibilidade.

Quanto mais, no liberalismo, serão sancionados da forma mais recíproca[2] possível − caso não haja convenção a tratar das violações − quando violam a propriedade de outra pessoa sem o seu consentimento.

Pelo contrário o estatismo é instável. Terão sempre de respeitar mais outra lei porque apareceu “um novo problema”. Nem interessa saber se esta nova obrigação entra em contradição com outro dever. É sempre impor algo porque podemos e queremos.

 

 Você sabe que uma pessoa é estatista quando ela não fica feliz por suas realizações pessoais e acha que vocês estão competindo. Ninguém merece, não é? Namorar uma pessoa liberal é ter a certeza de ter alguém que se realiza ao vê-la feliz e realizando sonhos e, ainda, a ajuda a chegar até eles.

Voltamos ao que foi dito antes, o estatista não fica feliz por suas realizações. Ou é porque é rico e deveria partilhar. Ou é porque tem um imóvel de luxo e tem de pagar um adicional ao IMI. Ou é porque é concorrente e dá cabo do negócio tradicional. Enfim, existe um enorme leque de reprimendas – sempre com alguma argumentação claro – para lhe impor. Não lhes interessa provar se o que você está a fazer viola ou não a propriedade de outro, se ele consentiu a tal ou não, se o que lhe vão impor está relacionado com o que fez e acaba nos bolsos de quem sofreu a “agressão”. Não, é sempre em nome de grandes princípios, do interesse nacional, da protecção de X ou Y…

Ao oposto de esta visão, o liberalismo deixara-vos fazer o que quiserem, vos associarem como quiserem, guardar o que ganharam. Apenas vos castigará se violaram o que é de outro sem o consentimento dele. O que claro obriga a que este também se queixe e prove que foi afectado.

 

 Uma pessoa liberal e bem resolvida sabe assumir quando erra, sabe pedir desculpas e procura melhorar o que faz de errado. Um estatista dificilmente assumirá um erro e ficará inventando desculpas para justificar aquilo que fez, por mais inocente que tenha sido.

Aí está mais uma vez a relação entre liberdade e responsabilidade. Quando você se compromete a fazer algo e falha, deve aceitar o castigo previamente acordado, ou repor a pessoa na situação em que estaria se tudo corresse bem, ou como se nada tivesse acontecido[3].

O estatista não se preocupa com nada de isso. A culpa é sempre de outro : do livre mercado, da ganância, da Natureza, da Oposição, das multinacionais, dos Governos anteriores, de Bruxelas… E isso funciona para tudo e mais alguma coisa, “mesmo o mais inocente”, porque o estatista vive num mundo de fantasia: pensa que pode resolver todos os problemas que ele aponta com as soluções que ele acha boas. Não lhe interessa saber se o que aponta é um problema ou não, se a solução é adequada ou não. É sempre o seu capricho, camuflado entre cortinas de pseudociência e manipulações variadas.

 

 Num relacionamento com uma pessoa estatista, conversar pode ser uma tarefa árdua. Isso porque ela sempre acha que o diálogo é desnecessário para aquele momento ou situação e que vocês deveriam apenas esquecer o que aconteceu. Já um liberal coloca os pontos nos “i” e não faz durar as disputas para acertar as pequenas desavenças.

Mais uma vez, quantas vezes não ouvimos estatistas dizer que “este tema não é para ser discutido nestas circunstâncias”? Que não quer saber dos vossos problemas ou que vos reenvia a qualquer solução que não vos ajudará?

Os liberais não. Ouvem o que as pessoas têm por lhes dizer, explicam-lhes se o que pedem é ou não realizável nos termos que propõem, ou mencionam pistas tendo em conta o que a pessoa quer e em respeito com os demais. E claro não andam a perder tempos em conversas estéreis sobre o sexo dos anjos. Os problemas são para serem resolvidos de forma adequada, e não para fazer prosa e arranjar truques insustentáveis. Ou então assumem de viver só de aparatos efémeros.

 

 O estatismo também pode fazer com que a pessoa não queira escutar os outros, principalmente os conselhos que lhe dão. Dificilmente vai aceitar os seus pontos de vista sobre a relação e achará que sempre está certo. O que não acontece com um liberal, que entende o seu lado e procura ouvir seus levantamentos.

Acabamos de falar de isso logo encima. O que pode acontecer é haver mais subtileza. O estatista muitas vezes impor-lhe-á uma solução. Ou arranjará uma para o problema que apontou. Funciona ou não? É justo ou não? As aparências são a única coisa que contam para ele. E se você contestar, terá direito a maior variedade de criticas: “tivesses votado”, “muda-te para a Somália”, “é porque não deram meios suficientes” …

Já o liberal não se pode dar a esses luxos. Claro não atendará a todos os vossos caprichos nos moldes que pedirão, mas terá de atender às vossas necessidades nos limites das suas capacidades, e do que está disposto a oferecer em troca[4]. Até porque é assim que funciona o livre mercado que ele defende. Aliás é assim que funcionam as pessoas de bem para a generalidade das situações.

 

 Um estatista dificilmente sabe o que quer e, muitas vezes, pode não estar pronto para aquele tipo de relação. Aí já viu o problema, não é? Um liberal tem plena convicção do que quer e faz questão de deixar isso bem claro para você!

Mais uma vez, os estatistas costumam improvisar em função das circunstâncias e do que lhes apetece. Será que sabem quais são os instrumentos que já estão em vigor? As consequências dos mesmos? As alternativas? Não, é reagir em função do que lhes interessa e pouco interessa a coerência. Ou é coerência nos limites que eles impõem – que esses limites não sejam suficientes não interessa. Não há um rumo, não há um objetivo ; quantas vezes a coerência é classificada, por eles, como “cegueira ideológica” ou “fanatismo religioso”?

Ou dito melhor, existem rumos imprecisos, que costumam seguir a via que permite ao estatista atingir os seus objetivos pessoais, pouco importa o que acontece aos dos outros ou se os seus objetivos são legítimos. E sabem como o ser humano costuma funcionar, nunca está satisfeito, quer sempre mais. O estatista concretiza essa característica ao impor aos outros de o satisfazer. E ele nunca estará satisfeito, assim que nunca vos deixará em paz…

Os liberais não se pautam por esta incerteza. Querem liberdade e que os deixem em paz. Dizem o que querem, organizam-se para o que os seus objetivos não violem os interesses legítimos dos outros e deixam cada um fazer o que quiser, desde que respeite os demais. O Direito liberal, a “relação” liberal, tem assim de se pautar pela simplicidade, a previsibilidade, a coerência e a estabilidade[5].

 

 Um liberal não toma decisões precipitadas e sempre pensa em vocês dois como um casal antes de fazer qualquer coisa. Um estatista pode ser impulsivo, fazer o que bem entender e a hora que quiser sem se preocupar com as consequências no momento.

Aqui o ponto chave é “casal”. Eu não duvido que os estatistas não tomem sistematicamente decisões precipitadas. Sim, eu acabei de mostrar a incoerência e egoísmo deles, mas isso não significa que sejam sistematicamente precipitados. O estatista quer ver determinado resultado se realizar, por consequente fará tudo para o atingir, fazendo os compromissos e as cedências que lhe permitirão chegar o mais perto possível.

O estatista sabe a que grupo falar, sabe o que lhes deve dizer, o que lhes deve dar ou prometer. O problema é que isso se faz em detrimento dos que não estão nesses círculos ou nos planos traçados. Aliás, mesmo aqueles que estão nesses círculos ou planos deveriam fazer atenção, não estão necessariamente ao abrigo que outros planos e círculos se formem contra eles. Como deveriam pensar se ganham realmente mais ao entrar nesses esquemas.

Quanto à precipitação, é melhor a entender como uma ausência de planeamento e de justiça nas acções. O estatista não se preocupa com as consequências a mais longo prazo, nem se a forma como age é legítima. Quanto mais ele pensa em como evitar uma contestação suficientemente forte, ou como a destruir antes que consiga mudar algo de facto.

Mais uma vez, no liberalismo, estes joguinhos de poder não têm lugar. A não ser que voluntariamente entraram num jogo. Alguns poderão contrapor-me que a vida é feita de jogos políticos, mesmo nas relações amorosas. Pois pode, mas nesses casos é novamente porque se inseriram num jogo chamado “vida em sociedade”: as pessoas querem uma infinidade de coisas, são seduzidas por milhares de técnicas. Nesse caso estamos num domínio que sempre existiu e existirá enquanto os Homens cá estarão. E justamente se os Homens eram mesmo mais liberais, menos de esses jogos existiriam pois não haveriam tanto medo em ser franco, em explicar o que se quer ou não, ao respeitar pelo qual nos comprometemos.

O lucro − esta palavra que significa muitíssimo mais que ao que aparente ser[6]− o tal, suposto, objetivo máximo do liberalismo, tem essa virtude de limpar todas as convenções, os preconceitos para se concentrar no resultado em harmonia com todos.

 

 A falta de liberdade pode fazer com que a pessoa acabe culpando a outra por tudo de mau que acontecer na relação, mesmo que seja erro dela própria. Quando a liberdade faz parte da vida da pessoa, ela entende que não pode culpar ou julgar ninguém.

Esta é aliás uma consequência indireta do estatismo: quando maior ele for, menos liberdade há, mais as pessoas estão dispostas a arredar as suas responsabilidades. Essa atitude é absolutamente normal: então se algo se propôs a resolver os vossos problemas, porque haveriam de assumir as responsabilidades caso corra mal? Muitas vezes existem vários mecanismos que nos permitem,  precisamente, fugir às nossas responsabilidades, porque haveríamos de nos infligir sentimentos de culpa?

Outro problema do estatismo, ao promover a irresponsabilidade, é que desmobiliza ainda mais as vítimas. Afinal de conta, se sofremos dificuldades e nunca ninguém paga por isso, como havemos de acreditar na liberdade e respeitar os outros? O Homem torna-se o lobo para o Homem…

Pelo contrário, no liberalismo existe liberdade e responsabilidade. Claro não é impossível que uns consigam fugir às suas responsabilidades ou usem de meios para tentar fugir às consequências. A questão nesses casos é de saber se este comportamento − que como bem vimos existe também e ainda mais no estatismo − é sustentável. Vejamos alguém que tenta fugir às suas responsabilidades:

Tem de comprar tempo, perde dinheiro e energia nesse combate, fica com a reputação manchada – pois em regime de liberdade ninguém será proibido do denunciar por todo lado, sem ter de temer sabe-se lá que processo por “ofensa à honra”[7]. Quanto mais asneiras acumulará, menos tempo e dinheiro terá e mais será conhecido como um sacana. Julgam que ganhará mesmo no fim? E mesmo que ganhe, quanto terá perdido para vitoriar?

 

 Um estatista deixa bem claro que te ama e se realmente ama, o que é mais importante ainda! Além disso, tenta provar a cada dia que o sentimento é real e que você pode confiar nele. Um liberal, por muitas vezes, pode até dizer o que sente, mas nas atitudes acaba se esquecendo de demonstrar.

Aí inverti a ordem. Porquê? Porque esta frase é uma frase de aparências. Sim, é certo que o estatista fará muitas vezes de conta que se preocupa com o vosso destino. Mas na realidade não trará nada de concreto; lá está, ele faz de conta. Aparências, anúncios, discursos, condenações, ele usará todos os meios visuais, auditivos, textuais para vos iludir.

O liberal não tem tempo a perder com truques. Preocupa-se com o concreto, o verdadeiro. Vê além das convenções que os Homens criaram para, supostamente, se protegerem, que acabam por os prender e os tornar ainda mais infelizes que se elas não existissem. Ele não precisa de demostrar.

Ele faz.

Namorar uma pessoa madura (3)
[1] https://portugalgate.org/2017/08/26/namorar-uma-pessoa-madura-1/

[2] Recíproca porque a liberdade é consubstancial à responsabilidade. Um não pode viver sem o outro. De esta forma, se você fizer X, não se poderá queixar se alguém lhe fizer X igualmente. A única forma de evitar o comportamento X é o contrato; se você e o terceiro tinham um acordo que lhe autorizava a ser o único a cometer X, então o terceiro terá de obedecer ao contrato.

[3] Pequena adenda, isto é um princípio basilar em matéria de inexecução contratual. De maneira geral deixa-se a liberdade ao credor de escolher entre obter mesmo a prestação, ou um substituto similar, que estava prevista no contrato (as indemnizações positivas) ou se livrar do contrato e voltar a ser posto na situação em que estava antes de concluir o contrato (as indemnizações negativas). Com a crescente regulamentação dos contratos isto já não é tão limiar ; por exemplo, em matéria de contrato de venda, ele apenas poderá obter as indemnizações negativas em último recurso.

[4] Oferecer no sentido largo, não falamos só de dinheiro. Também acontece que não lhe peçam nada em troca. É ao critério de cada um.

[5] Isto parece uma frase conservadora, não é? Não. Não é porque o conservadorismo não é uma filosofia que procure a coerência, é uma filosofia que considera que determinados valores ou comportamentos devem ser preservados. Como bem vimos, no liberalismo existe um maior grau de abertura para constantemente pôr tudo em causa, desde que haja acordo das partes afectadas em suas propriedades.

[6] Prazer, lazer, cultura, amizade, amor. Todo isso é lucro. É um estado em que temos um Bem, em que minimizamos os sacrifícios, os desprazeres, as dificuldades.

[7] Atenção que eu estou a pôr a hipótese em que aquele que é criticado o é por causa de factos verdadeiros. A mentira pode justificar uma condenação por “ofensa à honra”, mas neste caso condena-se a mentira porque originou comportamentos que nunca teriam lugar se ela não tivesse sido pronunciada.

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