A Idade da hipocrisia, a mundivisão limitada e o ego exacerbado

Ser livre não é algo fácil e reparo que infelizmente as pessoas desenvolveram uma aptidão para querer tudo fácil e rápido. Não que seja errado querer facilitar e agilizar as coisas. O problema é quando não vemos as consequências de certas “facilitações”. E infelizmente isso é levado para o campo do pensamento social e político.

Vejamos, sempre tive inclinação para o centro político. Mas desde pequeno (porque sim, desde criança que gostava de política) ouvia em discussões em todos os meios, pessoas dizerem que era mal ser do centro, era indefinição, ou se era de esquerda ou se era de direita, e pensava eu, que teria que de facto escolher numa perspectiva dualista, entre o eles e o nós. O nós tinha que deter o monopólio da virtude e do correto, o eles são os errados, pobre doentes mentais que não tem boas ideias. Várias vezes aceitei pensar desta forma, de todas me arrependi. Inspirado num livro que gosto imenso, com o tempo percebi o significado de, “quem não é contra nós, é por nós”. Percebi que mesmo que possamos diferir no conteúdo e nos fins, se a pessoa não está contra a minha existência, meus valores e ideias, é porque está a favor de mim, mesmo que não concorde comigo. Isto não é simples de perceber, principalmente numa Era em que se apela à divisão e ao conflito. Infelizmente, vivo numa Idade hipócrita em que as pessoas não sabem aceitar ouvir críticas, e quem as emite acha que o receptor é obrigado a aceita-las.

Há um tema em que noto isso de forma perfeita, sobre a comunidade LGBT. Quer conservadores, quer fascistas, quer comunistas, sociais democratas, democratas sociais, quer quase toda a gente fica descontente com a minha postura em relação ao tema. Porque a sociedade desenvolveu uma tendência que é, ou eu aceito por inteiro ou eu recuso. Eu aceito a diferença, luto pelo respeito à diferença, mas não sou obrigado a concordar com ela. Não sou contra a mesma. Tal como não diz respeito a ninguém o meu credo e a forma como o pratico (se a pessoa discorda ou concorda), também não me diz respeito ou à ninguém que seja, quem se une civilmente/casa com quem, qual é o credo do político x, qual a origem do empresário y ou o que o sujeito w vai fazer com a sua propriedade. Isto leva ao ponto de haver gente que me chama de preconceituoso, herege ou radical de esquerda disfarçado de direita (só dá vontade de rir).

Normalmente quem me chama de herege ou radical de esquerda disfarçado de direita  é gente que ainda não aceitou bem a laicização e pluralização civil e acha que seu credo ou ideias tem que monopolizar a praça pública. À esses só tenho a dizer que os vossos valores e pensamento ninguém vos impede ou impõe que sigam nos vossos lares e espaços de reunião, nem que os promovam. Eu sigo a minha fé por firme convicção e liberdade, tal como o meu pensamento, e como não quero que ninguém me obrigue a acreditar em coisas que considero heréticas e erradas, também não quero que ninguém me obrigue a parar de fazer algo só porque considera errado ou herético. Mas quero poder continuar a me exprimir, tal como respeito as pessoas que exprimem aquilo que acreditam.

Quem me chama de preconceituoso é igual aos mesmos preconceituosos que querem criticar e até se assemelham à Alemanha Nazi ou à URSS. Essas duas forças radicais que controlaram essas unidades políticas, taxavam toda a gente de doente que de alguma forma era contrária às suas ideias e convicções. E eis que os “promotores” da compreensão, hoje em dia, fazem o mesmo, tudo que alguém não vê da mesma forma tratam como doente. Para quem não sabe, quem tem uma fobia é doente, então os tais “promotores” quando chamam alguém de homofóbico, islamofóbico, misógino ou qualquer outro fóbico, está a chamar essa pessoa de doente e a dar o mesmo tratamento que a Alemanha Nazi dava aos gays, judeus, ciganos e tantos outros grupos. Não é porque a pessoa não vê as coisas da mesma forma que você quer dizer está contra aquele grupo. O engraçado é que gente próxima e afastada já me chamou de tal.

Eu não sei o que se passou com a Humanidade, quando temos a oportunidade de forma fácil e ágil de aceder à informação, de compreender o outro e complexificarmos o nosso pensamento e consolidar para algo melhor, nos escondemos em grupos e grupinhos, consolidamos uma visão limitada do mundo em que só vemos a nossa opinião e não sabemos respeitar a opinião do outro ou sequer compreender o outro. Tudo é motivo para circo e ofensa. O período que poderíamos ser mais abertos às novas ideias, tem se mostrado o período em que as pessoas menos estão comprometidas com a verdade, honestidade intelectual e progresso do pensamento social.

Que sociedade é esta em que há pessoas que tem orgulho de dizer que só lidam com gente que pensa igual a elas? Como é que o sinónimo de “quem não pensa igual a mim”, passou a ser inimigo? Cada vez mais reparo que sou de uma minoria que gosta de lidar com gente de todo o tipo. Não me importa a etnia, o credo, o pensamento, orientação sexual, ou qualquer gosto que a pessoa tenha que para mim possa ser um desgosto. Eu gosto imenso de um amigo meu, que na minha opinião é exageradamente conservador, não é a favor de refugiados e tem dúvidas em relação até que ponto tem que ser respeitada a diferença cultural. Tenho outro que é completamente contrário ao aborto. Também tenho amigos gays. Tenho amigos que são comunistas e sabem o quanto discordo desta ideologia. Tenho amigos católicos e muçulmanos, sendo eu protestante. Alguém me diga, acaso uma amizade ou relacionamento social tem que ser feito só entre gente que concorda em tudo? Alguém que não sabe lidar com a diferença de pensamento e não sabe ouvir críticas (que é diferente de aceitar as mesmas) não tem qualquer comprometimento com a pluralidade, progresso e muito menos com a liberdade.

É estranho ver que entre a juventude se aceita a exacerbação do ego e que se limite a forma como vemos o mundo, como se o mesmo fosse limitado. Caminhamos pela hipocrisia argumentativa de gente que acha que sabe aceitar a diferença e não o sabe. Até quando teremos falta de visão?  Acabarei com outra citação do mesmo livro que tanto gosto, “não havendo visão, o povo perece”. Mas que falta de visão e o quão em risco está o nosso futuro!

Matheus Costa

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