Portugal com Vida Suspensa à Beira de uma Paragem Cardíaca

Na minha última publicação falei de uma das graves falhas na comunicação social, o fetiche pelo ciclo de indignação-esquecimento. Hoje achei que deveria promover um tipo de jornalismo que não é suficientemente valorizado dado que não é mediático, é mais cerebral, requer trabalho. Existem investigações de grande qualidade feitas por programas como o Sexta às 9 da RTP, os vários trabalhos das Vidas Suspensas ou o Acha Que Conhece o Seu País? da SIC ou como outro exemplo, o último Repórter TVI sobre as Contaminações dos terrenos do Parque das Nações. Entre estas, por vezes também somos expostos a investigações titânicas por parte da SIC que demonstram pequenos exemplos das redes de corrupção e o alcance da podridão que corrói a sociedade portuguesa, como na queda do BES, a operação Marquês, o BPN, BANIF, etc etc.

Este tipo de reportagens não são inconsequentes, alias, necessitamos de um ressurgimento deste tipo de trabalho. Acho que merecemos, acho que precisamos e com muita, mas muita urgência.

Chegamos a uma era em que a transparência é cada vez mais nítida e a informação cada vez menos concentrada nas mãos da auto-intitulada elite. Essa transparência e esse acesso à informação são os principais inimigos de quem se enriquece às nossas custas e de quem faz de nós uns verdadeiros otários dia após dia.

Todas as sextas-feiras fico de boca aberta com a falta de rigor, profissionalismo e qualquer ausência de responsabilização por parte das entidades que sistematicamente desfazem famílias e lançam o caos perante os portugueses. O Sexta às 9 tem feito um trabalho exímio em reportar algumas grandes falhas do nosso sistema, e em alguns casos levaram a consequências e a pequenas reformas. Merecem o reconhecimento disto, mas infelizmente, ainda não é o suficiente.

Ao ver qualquer daquelas reportagens, seja na RTP, SIC ou TVI, chegamos à conclusão que não podemos confiar em quem está em posições de poder. Vivemos num país com mais de 600 mil funcionários públicos, uns com mais poder que outros, mas todos invariavelmente com o poder suficiente para afectar profundamente as vidas de cada um dos milhões de portugueses que vivem dentro e fora de Portugal. Se viver à margem da responsabilização e da supervisão não fosse o suficiente, ainda temos o resto da sociedade para enfrentar, o que me dá a distinta ideia que vivemos de facto num país muito perigoso. Um poder governativo sem supervisão e uma sociedade à viver à margem da lei não são bons ingredientes para garantir “a paz social”.

Podemos não ser alvo das ondas terroristas e xenófobas que esbarram pelo mundo fora, muito devido à nossa ausência de aventuras militares em países que não nos dizem nada e também devido à nossa história e cultura que tendencialmente é aberta a novas ideias e novos horizontes.

Podemos não correr estes riscos mais iminentes e podemos não sofrer destas ameaças à nossa democracia e liberdade, mas corremos perigo, disso garanto-vos.

Neste momento somos governados num ambiente em que nos é encafuado goela abaixo, que nem uns belos patos para fazer foie grás, que nada de mal se passa, tudo é fantástico, e tudo corre bem.

Vivemos bem para além do país das maravilhas e completamente alheios à realidade que suspende as vidas de milhares de portugueses todos os dias. Ignora-se o que é de facto sério para dar foco sem fim à política macroeconómica do país. Baixamos uma percentagem no défice, aumentamos outra no crescimento trimestral, mexe uma vírgula aqui, outra ali.

Passamos noticiários inteiros e programas de “debate” político a “comentar” quem é que tem o mérito da boa nova, porque assim quiçá o plebeu poderá aumentar, um poucochinho, a confiança neste ou naquele grupo de palhaços a orquestrar o próximo ato do circo que são as sessões parlamentares.

Distraem-nos com debates sem fim, sobre a grande obra e a grande luta que combatem, para ajudar os pobres, para combater a precariedade, para lutar contra o grande capital, para ir buscar o dinheiro a quem acumula e a quem foge à tributação. Gritam e batem o pé, e embora não façam assim grande coisa que se veja, ainda se congratulam com tudo o que é de bom. Seja o tetracampeonato do Benfica, seja o centenário de Fátima, seja o Salvador e a conquista daquela “coisa” como o próprio Sobral chamou o troféu da Eurovisão, tudo mas TUDO o que seja de positivo é de obra e mérito única e exclusivamente deles. E aí de vocês se não agradecerem todos os dias ao pai, ao filho, ao espírito santo e à sagrada geringonça por terem comida no prato. Ou neste caso, a engorda que nos eventualmente levará a um fígado bem gordo, pronto para a sua colheita.

Ontem nas Vidas Suspensas da SIC apresentaram uma história, que como todas as outras, me deixou a perguntar, mas que raio é que se passa aqui?

Resumidamente, contaram a história de um senhor que trabalhou a vida toda para construir a sua vida (como muitos), que no próprio dia em que a empresa informou os seus trabalhadores que teriam que trabalhar todos até uma hora mais tarde do que o programado, ele teve o desplante de informar que não poderia fazê-lo pois já tinha compromissos marcados que não podia falhar.

A empresa decidiu retaliar, retirando-lhe horas de trabalho extra, decidindo não pagar o trabalho de feriados e dos tempos extraordinários, e este senhor, mais uma vez, teve a audácia de se queixar ao tribunal do trabalho. Ora a empresa quando descobre, abre processo interno contra o senhor, inventa umas justificações fictícias para o por na rua, despedindo o mesmo, dizem eles, por justa causa.

O senhor no desemprego recorre à justiça que entretanto não lhe atribui advogado. Senhor perde o carro, a casa, a mulher e a família. Pede a múltiplos advogados para o representar, e teve a má sorte em quem aceitou representar, que o faz mal e porcamente. São indicadas 4 testemunhas para falar em defesa dele, só foram convocados 2 no dia antes do julgamento.

As testemunhas da empresa mentem em tribunal, e os dois colegas que tiveram o desplante de falar em defesa do seu colega eventualmente também saíram da empresa por “incompatibilidades”. O senhor tenta interpor recursos mas o advogado diz que não tem tempo pois esbardalhou-se pelas escadas abaixo, que se encontra em recuperação e não pode tratar do assunto. Ora o senhor estando no desemprego vê esse mesmo advogado fino que nem um figo nesse mesmo dia. Enfim. Está neste momento de vida suspensa pois a nossa sempre célere justiça trata estes casos, como tantos outros com a urgência que merece: ou seja, para eles, nenhuma.

E ficamos ali, a pensar que de facto, é mesmo assim. Que vivemos num país em que se te atreves a abrir a boca, a contestar o que for, a reclamar direitos ou no mínimo dos mínimos, dizer que não, então é bom que tenhas uma artilharia de cunhas, connects e amigos que possam ajudar a enfrentar as consequências que vierem.

Uma pessoa diz à sua gestão, que não é competente o suficiente para anunciar as suas escalas de trabalho com antecedência, que não pode trabalhar essa hora extra, e tungas, três funcionários vão para a rua, efectivamente dando cabo de três famílias. É nisto que vivemos, não podemos levantar a cabeça porque não temos quem olhe por nós. 600 mil funcionários públicos que deveriam ter sentido de estado, que deveriam saber que estão lá para nos servir, para nos proteger, para ter em mentes os nossos melhores interesses, querem lá saber dos restantes milhões de portugueses que pagam o ordenado deles. Querem é saber dos seus salários, das suas férias, das suas reformas, dos seus aumentos, do seu crescimento, das suas horas de trabalho, dos seus direitos, etc. E temos a governar-nos quatro partidos que são peritos em proteger esse seu público alvo de 600 mil eleitores, com a sua máquina sindical pelo meio, e é por isso que eles têm direito a tolerância de pontes que não existem e o resto de nós não.

O perigo que existe aqui, é que enquanto uns governam a olhar para o seu umbigo, o resto do país anda a ser categoricamente e consistentemente fodido (tipicamente não uso palavrões mas não havia outra palavra que melhor descrevesse o que sinto). Mas como pintam o ar de cor de rosa, parece que afinal as coisas não andam assim tão mal.

As coisas andam mal, e olhem que eu sou um optimista! As coisas andam mal: perguntem só aos moradores do parque das nações que andam a respirar benzeno, ou às famílias vítimas de técnicas da segurança social que pertencem a esquemas para preencher os orfanatos com crianças retiradas ilegitimamente aos pais, ou aos milhões de portugueses que sofrem todos os dias perante a grossa incompetência de funcionários públicos que querem é ir picar o ponto para ir para casa antes do resto dos plebeu poder sair do trabalho, horas depois, e sem direito a ordenado extra.

O perigo é claro e gritante, e com cada trabalho de jornalismo destes que desmonta um esquema e demonstra a bandalhada que por cá governa e gere o estado, o mais nos aproximamos daquele momento em que um Mohamed Bouazizi (senhor que se auto-imolou e foi estopim dos protestos dos protestos na Tunísia) destas bandas se suicida às portas da Assembleia da República devido à ausência de um estado que sirva para governar para além dos seus clientes imediatos, ou seja, eles. Tenham cuidado, comecem a reformar, e rapidamente pois a coisa não irá correr bem. Reformem e ponham-se a mexer que não estamos assim muito longe daquele momento em que perdemos a cabeça. O povo português é pacato e consegue aguentar muito, mas aguentar muito mesmo. Mas após 40 anos de andarmos a ser enganados e esmiuçados de milhares e milhares de milhões de euros para financiar todo um quadro de bandidos de primeira, já o Thomas Jefferson dizia, que para manter a democracia, eram necessárias revoluções todas as gerações. A próxima revolução não necessitará de tanques e soldados na rua, mas garanto que muita gente irá para a cadeia, porque não admito que os Salgados da vida passem a vida em bem, mas se eu roubar um pão para alimentar a minha família vou preso e custar ainda mais aos contribuintes.

Eu recuso-me a pagar outro resgate. Isso garanto. E vocês?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s