Crispação, queixume e azedume

Texto lido : https://www.youtube.com/watch?v=ZaSn8YijoQ4
Uma das coisas que mais gosto de fazer é observar e analisar o comportamento das pessoas. Este interesse está muito provavelmente ligado à minha história pessoal, que já tive a oportunidade de esmiuçar noutra ocasião[1].

Ora ultimamente o que mais tem marcado, e tive trocas sobre este tema com algumas pessoas, é que acho a generalidade das pessoas bastante crispadas, queixosas, preconceituosas, piegas ou fechadas.

Não sei se será do tempo – quando escrevi isto estávamos no fim do Inverno – ou dos meios socioculturais nos quais me insiro – o que me parece estranho porque conversei de isso com pessoas inseridas noutros meios, e inclusive países e as constatações são idênticas.

Também ponderei que fosse uma questão de carácter, se calhar as pessoas com quem eu conversei comportam-se da mesma forma que eu e é por isso que depois as reacções dos demais são similares, mas mesmo assim não me parece que as similitudes sejam tão grandes quanto isso.

A questão do tempo será provavelmente a mais pertinente, o Inverno tende a nos tornar mais tensos que durante o Verão, a falta de luz e o frio contribuirão por isso.

No entanto se me parece que com o chegar do Verão e do Sol as pessoas tendem a estar efectivamente menos crispadas, com mais sentido de humor ou tolerantes, parecem-me sempre que estão cheias de tabus ao longo do ano que os levam novamente para a crispação quando são invocados.

O que entendo por tabus? Entendo sobretudo questões relacionadas com a sexualidade, a intimidade, o convívio com pessoas diferentes e desconhecidas e as relações com a hierarquia. Ou seja, temas relacionados com as interacções humanas simplesmente. E a crispação volta a aparecer mal se conversa sobre isso.

Mesmo o humor parece ser incapaz de travar essa crispação. Eu sou uma pessoa que gosta imenso de fazer humor sobre tudo e mais alguma coisa, todo tipo de humor é susceptível de me agradar, à condição de ser bem feito e não ser intencionalmente vexatório. Assim humor negro, sarcástico, sobre a aparência das pessoas, suas nacionalidades, sexualidade etc. agradam-me imenso, gosto de fazê-lo e também não me ralo se alguém usar contra mim humor que poderá parecer ofensivo.

Agora com as demais pessoas isto nem sempre é possível. As pessoas têm graus de sensibilidade variados, e ofuscam-se quando se toca esses temas. Dirão-me que é normal, temos todos um tema que nos revoltam, temos dias menos bons e mais bons e existem diversas maneiras de dizer as coisas. Eu obviamente sou igual aos demais.

No entanto creio ter uma diferença com os outros, é que eu tento em regra geral guardar a calma, e não necessariamente atacar a pessoa porque disse algo, num tom ou a um momento que me desagradasse – não funciona com toda a gente infelizmente, mas a esmagadora maioria sim!

A diferença poderá ser que como eu tento me posicionar mais na posição de aquele que faz piadas, arrisco-me mais facilmente a chocar os demais que eles me choquem a mim. Contudo mesmo quando as conversas são um pouco mais sérias, ou menos ligeiras, parece que há sempre um tabu ou queixume que aparece a determinado momento.

Constato que as pessoas têm uma tendência enorme para desviar para a crítica. Quando isso acontece eu começo por os deixar esvaziar o saco. Por experiência própria sei que às vezes as pessoas só precisam de esvaziar o saco para avançar melhor. O problema é que não raras vezes voltam a vir mais e mais queixas. Eu tenho por hábito de fazer então perguntas de maneira a que a pessoa chegue por si própria a uma solução, ao qual chega geralmente. Só que passado algum momento voltam a vir as queixas…

Inútil dizer que é cansativo estar a conviver com pessoas que passam imenso tempo a se lamuriar. E o pior não é isso. O pior é que quando se tem de fazer algo, tem de se enfrentar uma situação, as pessoas não querem saber. Mais, ofuscam-se quando afirmamos que vamos tomar determinada atitude, sobretudo quando esta lhes parecer pouco banal.

Quando digo banal eu não falo de atitudes ilícitas, atitudes que violem a propriedade ou que ferem o PNA[2]. Falo simplesmente de quebrar certas convenções sociais.

Dou um exemplo: há tempos estávamos a nos queixar que os nossos professores eram incapazes de nos darem uma cópia escrita dos exercícios. Na minha Faculdade de Direito temos sessões em que resolvemos casos, geralmente inspirados de precedentes. Ora acontece que o professor se limita a explicar o caso, e quem se distrai arrisca-se a ter apontamentos incompletos.

Poucos professores se lembraram de fazer um livro com os exercícios todos (alguns o fizeram mesmo assim). Ora eu propus de enviar um email a propor isso mesmo aos professores. Ou a organizar um grupo de estudantes que fizesse os exercícios, supervisionado por um assistente, que depois publicaria os exercícios. Enfim algo que nos deia conteúdos viáveis.

Inútil dizer que ninguém se motivou para isso, e quando se soube que mandei um email, sozinho, aos nossos professores, tive direito ao sarcasmo, quando não critica por propor uma medida que desincentivará os alunos a vir aos exercícios ; pois… alguns professores publicam os seus exercícios e, no entanto, têm as salas tão cheias como aos outros, mas aquilo supostamente desincentiva as pessoas a virem às aulas… E eu ainda a pensar que mais que vir às aulas o importante é termos pessoas bem formadas…

E haverá imensos exemplos parecidos. As pessoas são de uma incrível inércia, deixam-se enlamear em convenções sociais mais que duvidosas sem grande fundamento. Creio que inclusive por causa de isso acabam por ser mais infelizes!

Esses comportamentos são até bastante estatistas, ou antiliberais! Porque vejam, o liberalismo caracteriza-se por ser uma filosofia sobre a liberdade. E liberdade implica responsabilidade, reciprocidade (ou retribuição) e respeito pela propriedade alheia.

Não há lugar no liberalismo para conflitos, ofuscações, censuras ou conspirações. Ser liberal acaba por ter por consequência, pelo menos na minha vida privada, de tentar ser bem-humorado, optimista, ligeiro, despreocupado, generoso, compreensivo e sério na altura de trabalhar. Mas claro também não admitir agressões físicas e responder em consequência.

Não é por nada que se pode afirmar que o capitalismo liberal nos humanizou. Terei tendência a pensar que quanto mais formos liberais (a sério, e não apenas o afirmar), mais felizes somos.

Pelo menos por mim até tem funcionado de esta forma. Não é fácil, não se consegue todos os dias, mas pronto há que tentar sempre. A vantagem é que quanto mais tentamos, menos nos deixamos afectar pelo veneno dos outros e a ser menos dependentes de eles.

E isso, creio que será a definição da felicidade : não depender de ninguém, conseguirmos sempre nos contentar do que temos ou ter mais sem fazer mal aos outros. E cereja no topo do bolo é conseguir tornar outros mais felizes também.

Dito de outra forma: de os ter tornado liberais também 😉

[1] http://mises.org.pt/2016/09/direito-de-secessao/

[2] Princípio de Não Agressão.

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