Palermices, Palermadas e Palermos: a Comunicação Social Portuguêsa no Poço

Mais uma semana, mais uma polémica, em que o Correio da Manhã publica um vídeo durante a Queima das Fitas no Porto, de cariz sexual, num autocarro, para principalmente arrecadar likes e visualizações. Se foi, ou não foi assédio não é aqui o foco, deixou outros indignados esse papel. Mas sim o que se seguiu que foi uma pequena tempestade de revolta, por um lado a criticar os protagonistas do vídeo, por outro o tipo de jornalismo (por vezes ausência) que é praticado no CM.

Creio que não é necessário falar muito sobre este tipo de comportamento, sendo repugnante para mim qualquer tipo de atitude que procura humilhar, objectivar, assediar, violar, maltratar, desprezar qualquer pessoa, seja homem, seja mulher, seja o que for. Isso para mim é a antítese de ser homem. Um homem não se comporta desta forma. Um homem que é másculo, protege, defende, não é cobarde, não é palhaço, não é algo que não merece pertencer a uma sociedade civilizada. Mas isso sou eu e a minha opinião. Avante.

Tenho o mau hábito de estar sempre a procurar mais da humanidade, de querer uma sociedade cada vez mais civilizada, que procura ser mais empática, mais atenciosa, e sobretudo, menos violenta, pura e simplesmente porque temos a capacidade de o ser. Mas todos os dias a levar com este banho mediático perpétuo de “noticias” criam uma certa angustia, pois já sabemos que há ciclos, e não me esqueço deles, e ao ler (sem precisar de ver) este vídeo do CM, leva-me a pensar em outros temas que estão interligados, mas não abordados. O facto é que existe uma cultura que é fomentada à volta deste “vida” académica, e embora não haja jornalismo que contextualize o vídeo em causa, isto aconteceu no meio de uma queima.

Há coisas que não consigo perceber, que não consigo encaixar na minha maneira de ser e de ver as coisas, por isso pergunto, será que sou o único que está farto de ler sobre os excessos das praxes, das queimas e de todo este ritual académico? A sociedade parece rendida a este ciclo de notícias, ficamos indignados sempre que a onda passa, mas a boiar na maionese da indiferença passados uns dias. Lembram-se do Meco? Pois..

Pergunto isto porque estes “escândalos” parecem já só servir para colocar nas capas dos jornais ou para arrecadar likes nas redes sociais. Consequências? Zero. Reformas? Para quê?

Mas todos os anos passamos por isto (da recepção ao caloiro à queima das fitas) e todos os anos discutimos as praxes (das violentas às menos más) e a queima (excessos de álcool, etc). Mas é só isso. Como tanta outra coisa, falamos alto, abanamos a cabeça; uns resignam-se, outros pensam que é “coisa de jovem”, outros tantos nem se querem lembrar, e uns outros tantos saboreiam as memórias dos seus “belos tempos”.

Sinto-me gozado com a falta de seriedade com que este tema é tratado e sinto que nos estão a tratar como se fossemos parvos sempre que nos apresentam um destes escândalos como se fosse a primeira vez. Não consigo perceber o medo de actuar perante a bendita praxe, de regular os seus excessos, de diminuir a sua inumanidade, porque sejam as instituições, sejam as autoridades competentes, ninguém quer tocar nesta sacrossanta “tradição académica”.

Em tempos, a praxe resumia-se a duas semanas por ano: no início a recepção aos caloiros, no fim a queima das fitas. Agora, todos os dias bem cedinho, quem passa pelos centros das cidades, passa por uma manada de trajado(a)s, a sistematicamente submeter uns coitados a uma série absurda e sem fim de práticas humilhantes e psicologicamente desgastantes. A seguir devem ir todos finos para as aulas, motivados e com o espírito pronto e preparado para aprender. É isso…

Há quem diga que não se pode tocar neste tema, que vangloria a praxe como o ex libris da experiência académica. Como já calcularam, não sou um desses.

Quando vemos nos centros das nossas cidades estas congregações de meninos e meninas vestidos a rigor, a maltratar, a humilhar, a subjugar, e a exercer a sua “autoridade” de uma forma cruel e sem mérito, que representam uma desresponsabilização individual, institucional, dos professores (pagos por nós) com aulas vazias pois não se marca falta a quem está na praxe, dos departamentos, dos pais, enfim, no todo uma tal podridão de espírito que já chegou ao ponto de um tema normal.
Expliquem-me porque é que devo tratar variantes graus de tortura psicológica e física como normalidade? Dá assim tanto jeito às faculdades ter quem desgasta a resistência dos novos alunos para que possam melhor papar o que lhes é servido? Dá assim tanto jeito à sociedade ter uma geração de gente que entende que o mundo funciona num ciclo eterno que vai de praxado a praxante? Que a autoridade não se questiona e que devemos engolir a caca que nos é servida com um sorriso na cara?

Expliquem qual a necessidade de submeter crianças, numa nova fase da vida, a todas as madrugadas, fins do dia, e durante o tempo livre, tempo que deveria ser utilizado para explorar a vida ou no mínimo os livros, andar a levar com uns marmanjos cuja habilidade académica é questionável (alguns “veteranos” bem para além da idade de estar na faculdade) e que dedicam mais tempo à praxe do que aos estudos?

Começamos muito mal quando a primeira desculpa é dizer que isto “é coisa de jovem”. Isto é a prototípica resposta para quem não quer assumir a responsabilidade de educar as próximas gerações. Lançamos os “jovens” para o mundo e olha, a escola, a sociedade, o país que os socialize. Por outro lado, e quiçá mais perigoso, demonstra uma ideia de quem acha que existe uma altura na vida em que podemos comportar-nos que nem umas bestas, como vimos com os “finalistas de curso” em Espanha, e estes não são alvo de grande repúdio, alias, os papás e as mamas têm que vir à televisão fazer figura de urso a desvalorizar o que fizeram, que partir azulejos e atirar televisões para a banheira e mandar colchões janela fora é normal. Mas normal aonde? Na minha casa com certeza que não, e acredito que para muitos também não. Alias, fui educado a ter muito respeito pelo que se tem, pelo que se consegue ter, que tudo o que nós temos sai da nossa pele, do nosso trabalho, e que como tal, devemos tratar a propriedade dos outros com a mesma consideração. Só porque “sou jovem” não tenho jamais a autoridade para fazer o que me apetece sem ter receio das consequências. Existem, e são graves, pois estes jovens depois tornam-se adultos, e esses adultos depois têm filhos a quem depois contam histórias do é brutal que é andar a apalpar pessoas inconscientes e pegar fogo a camas e esvaziar extintores nos corredores. É contra isto que eu me indigno, é que quem desculpa com esta facilidade, muito provavelmente, já fez muita bosta na sua vida e continua a proteger que anda a desfazer aquilo que muitos andam a construir com as suas mãos..

Quem percebe que não estou a generalizar, sabe que estou a falar dos casos mesmo podres, e tenho a absoluta noção que há gente que leva o espírito académico pelo lado bom. A questão é que são esses mesmos que têm o dever e o direito moral de policiar os selvagens, de não permitir os abusos e as javardices, pois são os que levam a coisa a bem, e não andam a abusar do seu estatuto e tentam mesmo ajudar na integração de putos apavorados por estar longe de casa e numa cidade estranha. A bem sim, a mal jamais.

A mim também me irritava profundamente quando era “jovem” e era associado aos selvagens que me rodeavam, e embora nunca fui nenhum santo, também nunca me passou pela cabeça cometer barbaridades só porque podia. E é necessário fazer este raciocínio, porque não é uma questão de ser politicamente correto, é uma questão de consciência e de justiça.

A partir de uma certa idade, o “jovem” já pode trabalhar, votar, comprar armas, declarar impostos, entrar nas forças armadas, conduzir um carro, viajar sem autorização, beber, fumar, ter relações sexuais, e todo um mundo de actividades que são bem mais resumidas quando estamos sob a alçada dos nossos pais/guardiões. Ser adulto não implica que uma pessoa não se possa divertir, mas o processo de crescer antes de ser lançado no mundo é entender até aonde é que se pode levar a nossa liberdade sem agredir a liberdade dos outros. Temos a liberdade de andar por aí a dar bofetadas às pessoas? Sim. É legal? Não. Tenho a liberdade de conduzir o carro com os pés? Sim. É estúpido?Muito. Legal? Provavelmente não, a não ser que se tenha uma boa razão.

Mas voltando à essência, fico fulo com este ritual de socialização, e não é de nada curioso saber que as maiores bestas que já conheci na minha vida, tinham muita “escolaridade”, ditos Senhores Doutores e Senhoras Doutoras que andam por aí a tratar tudo o que é pessoa como a reles plebe que os deve servir. E não é de surpreender que muitos dos nossos governantes e a dita elite, pensam assim. Há uma toda burguesia endividada/falida que ainda acha que vivemos nos tempos da aristocracia, e que eles são superiores ao resto da humanidade, só porque têm um nome de família X ou um título Y.

Enfim. Aonde estávamos?

Quando os pais entregam os filhos às faculdades com a expectativa que aprendam, no mínimo, algumas competências e skills que os ajude a vingar no mercado de trabalho, não estão a falar de choques hepáticos e uma capacidade para aturar filhos da p&%# fora do comum. Esta última até pode ajudar, mas para isso a vida já é escola suficiente.

O que acaba por ser transmitido aos “jovens” é um curso avançado sobre as piores características da sociedade, anos em que se experiência um microclima concentrado de humilhação, de subjugação dos mais novos, de criar um ambiente em que a cunha vale tudo e o mérito vale nada, em que a tradição está acima da ética e da moral, em que a desresponsabilização pessoal e a indiferença institucional são essenciais, e toda uma série de características que vemos depois espelhado no resto da sociedade, da política, à justiça, à autoridade, ao mercado laboral, enfim, ao país.

Espalhadas pelo meio temos umas pepitas de chocolate para adocicar a bosta, para parecer que até gostamos, que até há momentos bons, e que de vez em quando sabe bem, que são criados laços que duram para a vida. Mas isto faz parte de uma narrativa fantasiada à volta desta coisa, que podemos encontrar em qualquer ceita, seja a ceita académica, partidária, ou qualquer outra ceita que dita qual a “tradição” que devemos seguir para poder pertencer.

Quem tem a dignidade, consciência e auto-estima o suficiente para vencer o medo que sentimos perante o desconhecido, é alvo do exílio, e quem recusar levar com ovos e farinha na cara, de ser abençoado com nomes ordinários ou de ter que levar a cabo simulações sexuais físicas com colegas (exemplos brandos do dia-a-dia da praxe), tudo em nome da santa tradição académica, não poderá participar na tradição, não poderá trajar-se, não poderá pertencer ao grupo.

Claro que existem alternativas, há carradas de gente que teve experiências académicas que foram pacíficas, em que laços de amizade foram criados através da cumplicidade, através de dialogo e discussão, através do relacionamento normal que dois seres humanos podem ter na procura de um ponto comum. As alternativas requerem um bocadinho de esforço, para não nos submetermos às nossas vontades mais básicas, animalescas, cruéis e violentas. Se não, ficamos por aqui, a boiar na maionese da indignação, de ano em ano, de escândalo em escândalo.

As faculdades servem para formar não só a mente mas a alma, servem para preparar para uma vida de trabalho, de sociedade, de cidadania, e serve como mais um passo opcional, para se poder especializar e criar um outro tipo de trabalhador. Digo opcional pois há cada vez mais maneiras de procurar o conhecimento sem ter que ir à caça do diploma.

Mas todos nós contribuintes, quem batalha diariamente para a economia deste país, temos uma responsabilidade investida nisto.

Vivemos em sociedade e colaborámos para que possa existir um sistema de ensino financiado pelo nosso suor, da creche à universidade, logo temos responsabilidade perante estes jovens que andam horas sem fim a levar com tudo e mais alguma coisa e a serem chamados e tratados de maneiras desprezáveis. Isto para mim é inaceitável, tal como é inaceitável existir toda uma classe de senhores professores que são intocáveis, que não se podem avaliar, e que continuam a ensinar como ensinavam há décadas, achando que um 18, 19, 20 são notas que simplesmente não se dão, mesmo que um estudante esteja 100% correto. Enfim, tema para outro dia.

Um estudante não se está a preparar para uma vida laboral, um estudante já está no início da sua vida laboral. E que tal começar a cumprir os seus estudos com o profissionalismo que é esperado de qualquer outro emprego? Não estão de férias, a faculdade não é um festival de música, e as responsabilidades não são só com eles próprios ou com os pais: vocês os estudantes têm a responsabilidade para com todas as pessoas que passam por vocês, todos os dias, e não imaginam o que sentimos quando vos vemos a fazer figuras de palhaço, com o nosso dinheiro.

Têm noção do quão desrespeitoso é, para as centenas de milhares de pessoas que trabalham até cair a pele, que vocês andem a desfilar pelas ruas da cidade a fazer tudo o que fazem, quando em bom rigor deviam estar a tentar fazer valer o NOSSO investimento em vocês? Mas têm ideia do peso do ensino superior para o estado? E agora não querem pagar propinas?

Da maneira como as coisas estão, das reformas que são necessárias no ensino superior na sua íntegra, com o potencial dos nossos estudantes a ser desperdiçado em baboseiras e idiotices, e que só por cima do meu cadáver. Eu não admito, tal como nenhum pai devia admitir, e mais, tal como nenhum professor devia admitir (diga-se de passagem que estes senhores são muito responsáveis pelo actual cultura).

Não percebem que já não andam na escola, estão a ser FINANCIADOS pelos trabalhadores deste país, para se tornarem em gente e devolver algo a Portugal pelo facto de terem sido alvo de um investimento ao longo de décadas para poderem trabalhar, como o resto do país, para sermos uma economia melhor. Se por acaso quando acabarem, não existir um mercado para vos inserir, a culpa é do planeamento e das políticas económicas e das geringonças que as conceberem.

Mas é insultuoso para nós cidadãos e para os estudantes que têm a plena noção do que está em jogo, gente séria que estuda até sangrar dos olhos, até queimar as pálpebras, até criar múltiplas dioptrias, que conseguem resultados e médias que são fruto do seu trabalho, e não das cábulas que orquestraram horas antes da prova.

Cada vez mais conheço gente séria, digna, serena, humana e simplesmente genial, que nunca pôs um pé numa faculdade, que com toda a humildade consegue aceitar que uma vida trata-se da aprendizagem que recebemos todos os dias e de ter a noção que todos temos responsabilidades para com os outros, e que todas as acções trazem consequências. Grande parte da nossa economia depende de pessoas que não se acham melhores ou superiores a ninguém só porque passaram uns anos trajados e tem um diploma na parede. Mas a economia, o mundo necessita de variedade, e precisa de facto de quem estuda de facto e procura novos horizontes do conhecimento, tanto como precisa de quem ponha esse conhecimento em prática.

Não tenho nada contra o que as pessoas fazem com o SEU tempo e o SEU dinheiro, agora quando se trata do MEU dinheiro, dos NOSSOS impostos, não admito, e sou um defensor incansável do contribuinte, porque parto logo do principio que nos estão a gerir mal o nosso dinheiro. Tem que haver regras, e se não as querem, procurem alternativas que não mexa com o nosso investimento.

Se é Público e financiado pelo público, então tem que ser alvo da opinião pública e do escrutínio público.

Sinto-me gozado, e sinto isto todos os dias de manhã quando vou trabalhar, tal como milhões de pessoas, e vejo centenas de jovens a praxarem, a serem praxados, e ainda tem a lata de mandar bocas a quem vai trabalhar, quando deviam era ter um poucochinho de respeito perante todos nós que sacrificamos para que possam ter aquilo que muitos nunca tiveram.

Mas no fim disto tudo, seja a tragédia do Meco, seja um vídeo publicado pelo CM, seja o escândalo do dia ou a obsessão da semana, tratamos tudo como se fosse uma brincadeirinha. Andamos por aqui a brincar aos políticos e aos governantes, e antes de nos tornar-mos num país a sério, teremos muito que caminhar. Não nos lixem, pois todos os dias vemos coisas que nos revolta, começando pelo bando de abutres que pois no Palácio de São Bento. E que fazemos nós? Chegamos a casa, jantamos, arrumamos a cozinha, caímos no sofá, entramos no coma das redes sociais e depois vamos dormir. Pura e simplesmente não temos a energia ou a vontade para levantar o dedo. Mas temos sempre a opção de acordar no dia a seguir e pensar que se calhar hoje consigo fazer as coisas um bocadinho melhor, um bocadinho mais humanamente. Ou talvez não. É uma questão de optimismo.

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4 comentários em “Palermices, Palermadas e Palermos: a Comunicação Social Portuguêsa no Poço

  1. A queima da fitas, as praxes… e os incêndios florestais.
    O ciclo indignação-esquecimento da sociedade portuguesa. E que também tão bem reflete as escolhas políticas dos portugueses.

    Curtido por 2 pessoas

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