O ’13 Reasons Why’, Baleia Azul e o falhanço das instituições

O normal seria hoje eu escrever sobre as eleições francesas. Acompanhei de perto e estou fascinado com a possibilidade de um liberal liderar uma potência europeia ou a eventualidade amarga da UE acabar com Mme. Le Pen. Mas creio que quem lerá este post é meu amigo ou conhecido e já deve estar cansado de tanto que eu falo sobre as eleições francesas. Por isso, falarei sobre outro tema.

Todos os estudantes universitários em Portugal estão numa fase de bastante stress, visto que é o último mês do semestre, sem falar para aqueles que também trabalham ou estagiam. Sexta estava cansado e cheio de dor de cabeça e vi que não valeria muito a pena estudar ou fazer qualquer trabalho. Resolvi então fazer uma maratona da tão falada ’13 Reasons Why’. A série é tão intensa que assim que eu via um episódio, queria logo ver o outro e quando dei por mim, acabei de ver a série as 2h30 da manhã.

Penso que a série é bastante completa, aborda quase todos os problemas da adolescência e da juventude de hoje em dia. Depressão (principal causa de morte entre adolescentes), namoros e amizades abusivas, bullying, cyber-bullying, traição (não só em namoros como em amizades),  peer pressure, autoflagelação (entre as principais causas de morte), superficialidade da sociedade, problemas de auto-estima e afirmação, abuso de drogas lícitas e ilícitas (entre as principais causas de morte), problemas financeiros da classe média, problemas de comunicação entre pais, professores e responsáveis, violação e suicídio (terceira maior causa de morte entre adolescentes).

Ou seja, ver a série em vários momentos é preciso ter estômago. As cenas que mais me impactaram foram as de violação e suicídio. Mas o que a série mesmo mostra é como as instituições sociais estão a falhar e morrendo de podres se não se (re)formarem.

A série mostrou que mesmo que uma menina bonita, que ia em festas, tentava ser uma jovem “normal”, que teve seus namoros e amigos pode sofrer de uma valente depressão. Como afirmei em post anterior, é difícil para muitas pessoas perceber a diferença.

A instituição família estava tão preocupada com problemas financeiros que por mais que mostrasse que amava a jovem, a mesma nunca se sentiu confiante o suficiente para expor o que se passava.

A instituição amigos, essa eu reconheço, é a que mais tem falhado nos dias de hoje. Com a Revolução da Informação muita coisa mudou. Não sei o que se passa, mas o que mais as pessoas tem reclamado é de amizades superficiais, muito se assemelhando à modernidade líquida de Bauman. Até eu já me cruzei com gente assim, que por vezes a amizade parece um mercado de satisfação do ego e não a reciprocidade e um sentimento fraterno (dessa gente eu tento me distanciar, visto que por mais eu mostre uma outra postura, a pessoa está numa espiral egoísta em que tem que levar um choque por ela mesma, pois falar parece que não resolve). Muitos jovens achavam que aceitar a diferença é aceitar o exótico, sendo que a diferença está presente em coisas simples. E isto dá para ver com Hannah, quando ela não era mais suficiente para preencher o ego, era descartada pelas pessoas que cria serem seus amigos.

A instituição namoro, casamento ou qualquer outro tipo de relacionamento, ali é interessante porque mostra o desconhecimento dos jovens, as primeiras experiências e por vezes muitos deles tem falta de um referencial (e tentam encontrar apoio em amigos, em que muitos se tornam abusivos). A maioria queria acreditar na felicidade e encontrarem um par para a vida, mesmo vendo tanta infelicidade e superficialidade ao redor, salvo raras excepções.

A instituição escola, aqui é que se vê a maior desresponsabilização. O que reparei na série e encaixo com o dia a dia é que os professores, a direção e os psicólogos de alguma forma parecem ter pedido aquele sentido de missão para profissão. No meio do stress de tantos alunos, a missão de formar cidadãos para a sociedade se perdeu para bons resultados académicos e uma boa faculdade para prosseguimento dos estudos. Posso dizer que a nível de professores e escolas que já frequentei, eu, criança e adolescente, conseguia perceber isso (mas não a este nível de elaboração). Percebia quando um professor ou funcionário queria de alguma forma nos impactar e fazer de nós melhores pessoas, mesmo com as suas vidas atribuladas. E também percebia quando havia aqueles que só vinham fazer o seu serviço.

A série mostra uma ausência de valores, o indivíduo em formação à mercê de si próprio, sem unidades e instituições de apoio moral. E também mostra que talvez quem tem coragem de ser ele mesmo, e com isso até sofrer certa exclusão, poderá estar melhor do que os outros (Clay). E também mostra como ser você mesmo pode ser levado ao ridículo (como tantas personagens).

O que tenho pena é não terem mostrado o falhanço político de uma maneira brilhante como mostraram os outros. Se viram a série ou se verão, reparem como as autoridades procederam. Ninguém enfrentou diretamente o problema, queriam se desresponsabilizar o mais cedo possível. E isto posso fazer um paralelismo com o Baleia Azul. Já repararam como as nossas autoridades tem agido? Querem tirar do ar sites e pedir para que as vítimas se exporem (como se a vítima tivesse força para isso no momento). Ninguém está preocupado em trabalhar com a prevenção, e a série, feita por iniciativa privada, teve um efeito preventivo muito maior e mais impactante do que qualquer autoridade até ao momento.

O que se passa com a nossa sociedade que permite as instituições falharem? Ninguém mais parece estar preocupado se a família dá errado e se separa, se amizades falham e acabam, se namoros e casamentos são grandes fracassos, se a escola e as autoridades políticas não se preocupam. Lidar com o fracasso é uma coisa boa que todos nós teremos que passar e aprenderemos muito com isso. Mas, permitir a objetificação de indivíduos e instituições sociais, tratar o seu fracasso como tratam um telemóvel que já está desatualizado, sendo preciso criar algo novo do além para preencher temporariamente o meu ego é que não.

Creio urgente um debate forte na arena política sobre os problemas que os jovens estão a passar, pois serão os cidadãos que irão liderar a República no futuro. Do que adiantará o progresso técnico e económico se não somos capazes de integrar os indivíduos na sociedade? O populismo e o extremismo estão aí sedentos por vítimas fáceis, cuidado.

Matheus Costa

 

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